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Provocação

O corpo

As 38 leis deste site descrevem o comportamento de um corpo. Nenhuma delas diz qual.

Só a bailarina que não tem.

Ciranda da Bailarina · Chico Buarque e Edu Lobo, 1983, para o balé O Grande Circo Místico

A bailarina não tem chulé

Em 1983, Chico Buarque e Edu Lobo escreveram uma ciranda para o balé O Grande Circo Místico. É música de criança, e é uma das coisas mais cruéis já escritas sobre corpo. A canção passa o tempo todo listando o que todo mundo tem — as marcas, as coceiras, os defeitos miúdos que qualquer um junta por estar vivo — e a cada volta da roda repete a mesma coisa: só a bailarina que não tem.

A bailarina não é uma pessoa. É a figura da caixinha de música: gira sempre para o mesmo lado, na mesma velocidade, e nunca acorda com o pé dormente. Tiraram dela a via, o lugar, o tempo, a história, a cultura e a condição, tudo o que fazia dela um corpo. O que sobrou dela gira sem nada disso.

É para essa bailarina que a maior parte destas 38 “leis” de UX foi escrita.

Se é lei, por que não vale para todo mundo?

Lei, na física, quer dizer que vale em todo lugar onde a gente olhou. A gravidade não pede licença para funcionar em Osasco, não cobra mais de quem é canhoto e não tira folga quando a pessoa está com pressa.

As nossas não fazem isso. A Lei de MillerAgrupe em blocos de até quatro, e faça os blocos contrastarem entre si.Abrir a lei → ficou famosa pelo número mágico sete, e o sete depois virou quatro: uma constante da física não cai pela metade quando alguém mede de novo. O Limiar de DohertyResponda em menos de 400 ms, nem que seja para dizer que está processando.Abrir a lei → são 400 milissegundos que a IBM tirou de operadores de terminal em 1982, e a gente cita como se fosse propriedade do cérebro.

Emprestar a palavra tem um efeito prático, e não é o de soar bonito. Lei é aquilo que a gente para de questionar. Ninguém pede a amostra de uma lei. Ninguém pergunta em quem a gravidade foi medida.

Isso já foi dito, e antes de mim

Quando fui atrás da provocação, descobri que ela tem dono, e que os donos são melhores que eu. Ótimo. Significa que o chão é firme.

Rosemarie Garland-ThomsonEscreveu sobre como a cultura constrói a ideia de corpo extraordinário, e, por contraste, a de corpo normal.Uma referência neste trabalho:1997Extraordinary bodies: figuring physical disability in American culture and literatureVer na bibliografia → batizou de normate em 1997, algo como “o corpo que virou a norma”: a posição de normalidade corporal a partir da qual alguém se apresenta como o ser humano definitivo, e contra a qual todo o resto é medido como desvio. É a bailarina, com nome acadêmico. Aimi HamraieContou a história política do desenho universal, quem o construiu, contra o quê, e o que ele deixou de fora.Uma referência neste trabalho:2017Building access: universal design and the politics of disabilityVer na bibliografia → levou o conceito para a arquitetura em Building Access (“Construindo Acesso”, 2017). Sasha Costanza-ChockEscreveu "Design justice", que pergunta quem decide, quem é medido e quem paga a conta de uma decisão de projeto.Uma referência neste trabalho:2020Design justice: community-led practices to build the worlds we needVer na bibliografia →, em Design Justice (“Justiça de Design”, 2020), chama o mesmo personagem de unmarked user, o usuário não marcado.

O que procurei e não achei foi alguém que tivesse pegado o catálogo que designer consulta de verdade e anotado, lei por lei, qual corpo cada uma presume. A crítica geral tem trinta anos. A aplicação a esta lista, não achei. Se existe e eu não vi, me conte aqui que a correção entra com crédito. Os seis estudos que medem leis famosas em outros corpos estão comentados em Referências.

O que a gente faz com isso

Tudo isso é bonito de dizer e chato de fazer valer. O A11Y.md, que escrevi para geração de software com IA, resolve uma coisa parecida num lugar mais fácil de medir. Nele a acessibilidade sai da revisão e vira pré-condição: o modelo recebe as restrições antes da primeira linha, e o que não as atende não chega a existir.

Aqui é o mesmo movimento, aplicado à teoria. “De qual corpo?” não é um parágrafo de acessibilidade no rodapé da lei, e sim condição para poder citá-la. Cada uma das 38 declara hoje o que se sabe sobre isso, e declara junto o quanto se sabe.

Na prática são três perguntas, e elas cabem antes de qualquer citação. Em que corpos isso foi medido? Do que, na lei, depende algum sentido ou algum movimento específico? E o que muda quando o contexto é outro? As duas primeiras estão nos estudos. A terceira quase nunca foi respondida, e saber que ninguém respondeu já é informação sobre quanto peso dá para apoiar ali.

Ps.: se você olhar uma lei daqui e achar que ela não sobrevive ao seu usuário, essa é a leitura certa. Me conte qual.

Seis lugares onde essa pergunta mora

De qual corpo estamos falando? A pergunta se abre em seis, e nenhuma das seis aparece no enunciado de uma lei, nem na amostra do estudo que a sustenta.

As vias

Por onde a informação entra e por onde a ação sai. Dez leis daqui descrevem luz entrando num olho.

12 leis mudam por aqui

O lugar

Onde esse corpo está. O aparelho, a conexão, o ônibus, o país, e o escritório onde o número foi medido.

4 leis mudam por aqui

O tempo

Quando esse corpo foi medido, e por quanto tempo ele continua sendo o mesmo corpo. Resposta curta: pouco.

6 leis mudam por aqui

A história

O que esse corpo já viu antes. Metade do que a gente chama de intuitivo é só familiar.

3 leis mudam por aqui

A cultura

De quem esse corpo é. Onde a evidência de variação é mais forte, e onde ela quase nunca é citada.

8 leis mudam por aqui

A condição

Como esse corpo está agora. Com pressa, com medo, com fome, com a conta no vermelho, e o que isso faz com a decisão.

8 leis mudam por aqui