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O corpo · 5/6

A cultura

É aqui que há mais estudo por trás, e é a parte menos conhecida de todas. Três efeitos que o design cita como universais mudam de tamanho, e um deles some por completo.

Os Hadza não têm efeito da posse

Os grupos isolados não têm o efeito. Os que convivem com turistas, têm.

O Efeito da posseNão tire o que já deu. Se precisar tirar, avise antes e diga o que entra no lugar.Abrir a lei → diz que a gente cobra mais para largar uma coisa do que pagaria para tê-la. É citado como se fosse mobiliário da mente humana.

ApicellaFoi procurar o efeito da posse entre os Hadza, na Tanzânia. Nos grupos mais isolados o efeito simplesmente não aparece.Uma referência neste trabalho:2014Evolutionary origins of the endowment effect: evidence from hunter-gatherersVer na bibliografia →, Azevedo, Christakis e Fowler (2014) foram procurá-lo entre os Hadza, caçadores-coletores da Tanzânia. Nos grupos mais isolados, o efeito não aparece: eles trocam em cerca de metade das vezes, que é exatamente a taxa de quem não é afetado por nada. Nos grupos que convivem com turistas, ele aparece.

MadduxComparou ocidentais e asiáticos orientais no efeito da posse e achou o efeito mais forte nos primeiros.Uma referência neste trabalho:2010For whom is parting with possessions more painfulVer na bibliografia → et al. (2010) já tinham achado o efeito mais forte em ocidentais do que em asiáticos orientais. E foram além: manipularam experimentalmente o quanto a pessoa pensava em si como indivíduo ou como parte de um grupo, e o tamanho do efeito mudou junto.

Então não é mobiliário da mente. É um efeito que acompanha a exposição ao mercado. Um produto que se apoia nele — período de teste, "seu carrinho está te esperando", "você vai perder seus dados" — está apostando que o usuário foi criado num certo tipo de economia.

De quem é a culpa

Culturas coletivistas cometem menos o erro, com uma ressalva de método.

O Erro fundamental de atribuiçãoQuando alguém erra, investigue o fluxo antes de culpar a pessoa.Abrir a lei → é a tendência de explicar o comportamento dos outros pelo caráter deles e ignorar a situação. É a base de "o usuário é burro" e de todo o trabalho de convencer o time do contrário.

ChoiReuniu, com Nisbett e Norenzayan, a evidência de que culturas coletivistas atribuem menos causa à pessoa e mais à situação.Uma referência neste trabalho:1999Causal attribution across cultures: variation and universalityVer na bibliografia →, Nisbett e Norenzayan (1999) reuniram a evidência de que culturas coletivistas cometem esse erro menos, sobretudo quando a causa situacional está visível. Culturas individualistas olham para a pessoa; outras olham para o campo em volta dela.

Uma ressalva precisa vir junto. Com o procedimento clássico, sem escolha, o viés aparece forte também no leste asiático. Parte da diferença pode ser de método, não de cultura. É uma diferença real com tamanho incerto, o que não é mito nem constante.

A cor tem fronteira, e a fronteira é a língua

Russos distinguem dois azuis mais rápido. É a língua, não a retina.

O russo obriga a distinguir goluboy, o azul claro, de siniy, o azul escuro. São cores diferentes, como verde e azul são para nós. O inglês e o português não fazem isso.

WinawerComparou falantes de russo e de inglês distinguindo azuis. Os russos foram mais rápidos, e a vantagem sumia sob tarefa verbal concorrente.Uma referência neste trabalho:2007Russian blues reveal effects of language on color discriminationVer na bibliografia → et al. (2007) puseram falantes das duas línguas para dizer, o mais rápido possível, qual de dois azuis era igual a um terceiro. Os russos foram mais rápidos quando os dois azuis caíam em categorias diferentes da língua deles. E o desenho do estudo fecha o argumento. A vantagem sumia quando eles faziam ao mesmo tempo uma tarefa verbal, e não sumia com uma tarefa espacial. Era a língua trabalhando ali, não o olho.

Isso encosta direto na Lei da similaridadeMesmo tratamento visual quer dizer mesma função, ainda que os elementos estejam longe um do outro.Abrir a lei → e na Lei da legibilidadeContraste, corpo e entrelinha vêm antes da escolha da fonte.Abrir a lei →. O ponto em que duas cores "são a mesma" é negociado com o vocabulário de quem olha.

Um aviso, porque este é terreno de neuromito. A história dos esquimós com dezenas de palavras para neve é um exagero de divulgação famoso. Geoffrey Geoffrey K. PullumChamou de "a grande fraude do vocabulário esquimó" a história das dezenas de palavras para neve, e tinha razão sobre o exagero.Uma referência neste trabalho:1989The great Eskimo vocabulary hoaxVer na Wikipédia ↗Ver na bibliografia → (1989) a chamou de "a grande fraude do vocabulário esquimó". Mas RegierFoi atrás do princípio por baixo do mito esquimó e achou lastro melhor: línguas de clima quente tendem a juntar neve e gelo numa palavra.Uma referência neste trabalho:2016Languages support efficient communication about the environment: words for snow revisitedVer na bibliografia →, Carstensen e Kemp (2016) foram atrás do princípio por baixo e acharam lastro melhor: línguas que usam a mesma palavra para neve e gelo tendem a ser faladas em climas quentes, e a ligação passa pela necessidade de falar do assunto. A língua não inventa a percepção. Ela cria categoria onde faz falta ter uma.

E o bonito também

Branco é luto no oriente. A mesma tela troca de sentido na fronteira.

Branco é luto em boa parte do oriente e casamento no ocidente. A mesma tela troca de significado ao cruzar uma fronteira, sem trocar um pixel.

O Efeito da usabilidade estéticaNão refine a estética antes de validar o conceito, o acabamento esconde o defeito.Abrir a lei → diz que bonito parece funcionar melhor. Ele não diz o que é bonito, e a gente costuma preencher essa lacuna com o próprio gosto sem perceber que preencheu.

Fecho com a que mais me incomoda. A Prova socialNúmero social real ajuda. Inventado destrói a confiança no resto da tela.Abrir a lei → é uma das três leis daqui em que eu encontrei um estudo que mediu o efeito e o mecanismo no cérebro na mesma tarefa, e esse estudo foi feito na Holanda. E “o que os outros estão fazendo” depende inteiramente de quem são os outros, que é a coisa mais cultural que existe. Uma das leis mais bem medidas do catálogo é também uma das mais presas ao lugar onde foi medida.