O corpo · 2/6
O lugar
Toda medida foi feita em algum canto do mundo. Quando o número viaja e o canto fica para trás, começa o problema.
400 milissegundos são o número de um escritório
IBM, 1982, operadores treinados. O número virou propriedade do cérebro no caminho.
O Limiar de DohertyResponda em menos de 400 ms, nem que seja para dizer que está processando.Abrir a lei → diz que abaixo de 400 ms a máquina responde, e acima disso ela faz você esperar. É um dos números mais citados do design de interfaces.
Walter DohertyMediu, na IBM em 1982, o ganho de produtividade quando o computador responde abaixo de 400 ms. É a origem do limiar que leva seu nome.Uma referência neste trabalho:1982The economic value of rapid response timeVer na bibliografia → e Ahrvind Thadani o mediram na IBM, em 1982, com operadores de terminal. Gente treinada, sentada, fazendo a mesma tarefa o dia inteiro, num equipamento que a empresa controlava de ponta a ponta.
O número virou propriedade do cérebro humano no caminho. Não é propriedade de cérebro nenhum. É a medida de um escritório específico, num ano específico, com um teclado que não existe mais. Em 3G instável, num aparelho de cinco anos atrás, 400 ms deixa de ser meta e vira ficção. O que sobrevive da lei é o princípio, e ele é ótimo: diga o estado, sempre. Só não prometa o número.
O aparelho é parte do corpo
Tela rachada, brilho no mínimo, sinal que cai. Nada disso está no usuário.
A tela rachada corta a linha do texto. O brilho no mínimo, para a bateria chegar até em casa, muda o contraste que você calculou. O plano de dados que acaba no dia 20 muda o que a pessoa está disposta a carregar. A mão que segura o corrimão do ônibus não é a mão que a Lei de FittsAlvo importante é alvo grande e perto de onde a mão já está.Abrir a lei → mediu.
Nada disso está no usuário, está em volta dele, e muda o resultado igual.
A Lei da legibilidadeContraste, corpo e entrelinha vêm antes da escolha da fonte.Abrir a lei → é o caso mais direto: o contraste que passa na sua tela calibrada, num escritório com cortina, pode sumir no sol das duas da tarde.
E o país também é um lugar
WEIRD: o grupo menos representativo que existe virou a régua de todos.
Joseph HenrichApelidou de WEIRD o grupo em que a psicologia é medida — ocidental, escolarizado, industrializado, rico e democrático — e mostrou o tamanho do problema.Uma referência neste trabalho:2010The weirdest people in the worldVer na Wikipédia ↗Ver na bibliografia → et al. (2010) apelidaram de WEIRD o grupo em que quase toda a psicologia experimental foi medida: ocidental, escolarizado, industrializado, rico e democrático. A sigla, em inglês, também quer dizer esquisito, e a piada é o argumento.
O Brasil não é esse lugar. Nem o Vietnã, nem a Nigéria, nem a periferia de nenhuma das capitais onde os estudos foram feitos. Quando a gente cita uma lei aqui, está importando um resultado junto com um endereço, e o endereço não vem escrito na embalagem.
As outras cinco dimensões
Onde isto encosta no catálogo