O autor
Quem escreveu isto
Antes de tudo, um curioso que atrevidamente tenta colocar seu tijolinho nos fundamentos do design. Seja com letras, pixels ou evidência, o que me move é conectar ideias como quem monta um quebra-cabeça, e contar as histórias que saem daí.
Um trabalho sobre cérebro e sobre corpo merece uma biografia sobre cérebro e sobre corpo. Se você entrou aqui atrás das minhas informações profissionais, me adiciona no LinkedIn — está tudo lá, em ordem e com os cargos certos. Mas se quiser saber um pouco mais sobre mim, que sou um cérebro num corpo com os sentidos que ele tem, um lugar, uma época, uma história, uma cultura e uma condição, o resto do texto é seu.
Eu devia ter uns sete anos quando a escola promoveu um concurso de desenho. O prêmio era um dia num clube de águas e o tema era imaginar o Rio Tietê limpo.
Eu tinha começado o meu quando um colega, por algum motivo que só ele sabia — desconfio que fossem as minhas cores —, rabiscou a folha inteira com uma canetinha. Eu não sabia que ela era marrom. Ele também não devia saber que tinha acertado em cheio a cor do rio de verdade. O que eu sabia era que a folha tinha acabado, que não havia outra, e que o tema continuava sendo um rio limpo.
Peguei a mesma canetinha e terminei o serviço. Preenchi o que faltava do borrão até ele virar barranco, sentei um bonequinho minúsculo na ponta, botei uma vara de pesca na mão dele e pintei a água de azul, que era a cor que eu reconhecia. Entreguei uma folha inteiramente suja para um concurso sobre despoluição.
Ganhei. Levei anos para entender o que tinha acontecido ali. Eu não vi sujeira, vi margem.
De onde veio isto
A conta só fechou depois. Eu pedia à minha mãe que colasse etiqueta nos meus lápis de cor, porque sozinho eu não sabia dizer qual era qual — e o pior sempre foi o marrom, porque a casca do lápis vinho parece marrom para mim, e a diferença só aparece quando a ponta encosta no papel. Ela me levou ao oftalmologista. O médico não fez teste nenhum: perguntou se havia daltônico na família, ouviu que meu avô era e que tenho um primo, e resolveu ali.
Genético. Próximo.
Sem poder confiar na cor, aprendi a inferi-la pela textura, pelo material, pelo que a coisa é. Se parece tronco, provavelmente é marrom. Levei esse hábito para todo lugar, e por muito tempo achei que era um remendo. Mas não parei de desenhar.
Nessa época eu queria ser inventor, e desenhava minhas ideias. Me lembro até hoje que o primeiro problema do mundo que tentei resolver foi o molho de chaves: achava aquilo desajeitado, e desenhei um em que as chaves saíam de um corpo só, como as lâminas de um canivete. Anos depois vi o objeto pronto, patenteado por outra pessoa. Não deu raiva. Deu a certeza de que a vontade estava certa e faltava método.
Mais velho abandonei a ideia de ser o Beakman, mas o espírito inventor não saiu de mim, e achei que na publicidade eu poderia seguir inventando — lá eles chamam de criação. Eu estava lá para ter ideias, sacadas, quem sabe ganhar prêmio, mas não para ser artista: o daltonismo seria meu arqui-inimigo de Photoshop. Contudo, no meu primeiro estágio na área de comunicação acabei fazendo uns cartazes de jornal mural no PowerPoint, e foram esses cartazes sem pretensão nenhuma que me arrumaram um emprego na criação. Fiquei quase dez anos nessa área. E em nenhuma das empresas por onde passei eu contei que era daltônico. Tinha medo de ser mandado embora.
Da criação publicitária fui para a criação de materiais de treinamento, onde sem querer querendo eu era designer de produtos e experiências resolvendo problemas instrucionais, sem ganhar o salário de um designer. Os treinamentos me levaram à gamificação, e minha primeira palestra sobre o assunto já era uma tentativa de inventar método. Tentei empreender com isso e não vingou, mas não por falta de conteúdo: toda vez que eu ouvia o briefing, percebia que o cliente não precisava de gamificação. Precisava de outra coisa.
Fui atrás dessa outra coisa e ela tinha nome: design de experiência. Anos depois fui atrás da coisa embaixo dessa também, e ela se chamava neurociência. Terminei uma pós na PUCRS em 2025, escrevi uma monografia sobre o que a neurociência tem a dizer para quem projeta interfaces, e este site começou como uma tentativa de traduzir aquilo.
O trabalho que deu origem a isto
A monografia de 2025, em PDF, como foi entregue e defendida. É o ponto de partida deste site, e não a fundamentação dele: o que você lê aqui foi reescrito, ampliado e, em alguns pontos, corrigido depois. Os erros que sobraram lá são meus.
Por que acessibilidade aparece em tudo aqui
Antes de eu descobrir que era daltônico, meu melhor amigo era cego. A gente brincava no corredor da escola com uma regra que inventamos juntos: eu tinha de ficar em silêncio para não ser encontrado. Era esconde-esconde para ele e pega-pega para mim. O mesmo jogo, duas regras, porque os corpos eram diferentes — e nenhum de nós tinha idade nem vocabulário para chamar aquilo de acessibilidade (ou de Flexibilidade e eficiência de uso, que o Nielsen escreveria quase dez anos depois).
Enquanto escrevia este site, essa infância voltou como pergunta técnica. Se o mesmo corredor precisou de duas regras, o que garante que uma lei de UX medida no corpo médio vale para o seu?
Fui conferir uma por uma. A Lei de Fitts foi medida em jovens destros num laboratório de 1954. A prova social, na Holanda. O efeito da posse não aparece entre os Hadza. E o número que eu mesmo repetia sobre daltonismo — 8% dos homens — vale para populações do norte da Europa: em Durban são 2,2%.
É por isso que aqui nenhum estado depende de distinguir matiz. Não é conformidade. É o método que eu usaria de qualquer jeito, porque é o único em que eu mesmo confio. A legenda do mapa cabe em três linhas e nenhuma delas é uma cor:
- Cheio é estrutura do cérebro, vazado é conceito de design.
- O tamanho do nó conta quantas ligações ele tem.
- Contínuo liga ao que você está lendo, tracejado liga vizinhos entre si.
É a folha rabiscada de novo. A informação não some porque a cor falhou; ela está segurada por outra coisa, e o trabalho é achar qual. É o que eu fiz nas trinta e oito leis deste site, uma por uma.
Onde isto continua
Não escrevi isto para concluir nada. Escrevi porque continuo achando que a parte difícil de design nunca foi a tela, e porque desconfiar da primeira leitura virou ofício: é o que faço quando subo num palco, quando abro uma roda de conversa, quando publico uma ferramenta em vez de um artigo. Penso a profissão em voz alta e prefiro estar errado em público a estar certo sozinho. Duas coisas ocupam o resto do meu tempo, e as duas vieram desse mesmo hábito de pensar em voz alta.
A11Y.md
Um arquivo de regras que o assistente de código lê antes de escrever a primeira linha, para a acessibilidade entrar junto com o código em vez de virar auditoria depois. Entrou no Claude for Open Source, da Anthropic, e este site foi construído com ele.
Conhecer o A11Y.md →Comunidade de designers que criei e lidero desde 2025, feita por gente interessada em gente. Nos encontros quem raramente tem palco apresenta, e eu facilito.
Conhecer a comunidade →Fora isso, coordeno trilhas no TDC e palestro sobre design, neurociência e IA aplicada. O inventor de sete anos continua achando que dá para melhorar o objeto.
No fundo é o mesmo trabalho de sempre, com método que o menino não tinha. Continuo organizando as chaves para que ninguém fique do lado de fora.
Onde me encontrar
Continuar