O corpo · 6/6
A condição
As outras cinco descrevem diferenças entre pessoas. Esta descreve diferenças dentro da mesma pessoa, dependendo do dia dela. É a mais fácil de esquecer e a que mais muda projeto.
Escassez muda a conta
A falta de recurso ocupa a cabeça, e o que sobra para a tarefa é menos.
Os agricultores de cana de Tamil Nadu, que fizeram os mesmos testes cognitivos apertados e folgados, voltam aqui por outro ângulo. O que ManiMediu agricultores em Tamil Nadu antes e depois da colheita. Os mesmos agricultores foram melhor nas tarefas depois de receber.Uma referência neste trabalho:2013Poverty impedes cognitive functionVer na bibliografia → et al. (2013) mostraram não é que gente pobre decide pior, e sim que a falta de recurso ocupa a cabeça e o que sobra para a tarefa é menos. Os mesmos homens, folgados, foram melhor.
Uma ressalva precisa vir junto, porque eu a cobro dos outros. A metade de laboratório desse artigo, a das vinhetas financeiras num shopping, não passou numa auditoria de replicação publicada em 2021, e um estudo com famílias de baixa renda nos Estados Unidos, que mediu antes e depois do dia do pagamento, não achou diferença de função cognitiva. O estudo de campo, o dos agricultores, é o que segue de pé, e ele já levou uma crítica de método sobre efeito de reteste.
Isso encosta em duas leis daqui. O Desconto temporalSe o valor demora a aparecer, entregue pedaços dele pelo caminho.Abrir a lei → diz que a gente prefere o menor agora ao maior depois, e antes do pagamento a curva fica mais íngreme, o que não é falha de caráter. Quem mediu isso não foi Mani, foram CarvalhoUma referência neste trabalho:2016Poverty and economic decision-making: evidence from changes in financial resources at paydayVer na bibliografia → e colegas, em 2016, e a diferença apareceu nas escolhas com dinheiro e não nas escolhas com esforço. E a Teoria da carga cognitivaSome tudo o que a tela pede ao mesmo tempo, e tire metade.Abrir a lei → tem teto mais baixo, porque parte da memória de trabalhoO espaço mental onde a pessoa segura o que está usando agora. Cabem cerca de quatro coisas, e elas se apagam em segundos se não forem usadas.Ver em Memória →Ver no glossário → já está ocupada com a conta de luz, e essa parte é o achado de Mani.
Se o seu produto é crédito consignado, empréstimo, benefício ou renegociação, você está desenhando para pessoas em escassez por definição. Desenhar com a curva do corpo folgado erra justamente o público que o produto atende.
E tem o outro lado, que é ético e não técnico. O Viés de escassezSó mostre escassez quando ela for verdade, e diga qual é o limite.Abrir a lei → fabricado — o contador regressivo, as "últimas duas unidades" — encontra alguém que já vive em escassez de verdade. A mesma alavanca que é persuasão num público é pressão em outro.
O futuro que a língua não marca
O achado mais sedutor do site, e o próprio autor ajudou a limitá-lo.
Este exemplo é o mais bonito e o mais perigoso do site, e vale contar até o fim.
ChenReparou que línguas que separam o futuro do presente se associam a menos poupança, e levantou a hipótese que Roberts refinaria depois.Uma referência neste trabalho:2013The effect of language on economic behavior: evidence from savings rates, health behaviors…Ver na bibliografia → (2013) reparou que algumas línguas obrigam a marcar o futuro gramaticalmente — "vai chover" — e outras não: em alemão ou mandarim, se diz o equivalente a "amanhã chove". Ele chamou as segundas de futuro fraco e mostrou, com dados de dezenas de países, que os falantes delas poupam mais, fumam menos e chegam à aposentadoria com mais patrimônio. A hipótese é que marcar o futuro o afasta, e o que está longe custa menos a sacrificar.
Se isso fosse verdade do jeito que soa, seria enorme. O português é língua de futuro forte.
Dois anos depois, RobertsRefez a conta de Chen controlando o parentesco entre as línguas, e o efeito encolheu bastante.Uma referência neste trabalho:2015Future tense and economic decisions: controlling for cultural evolutionVer na bibliografia →, Winters e Chen (2015) refizeram a conta controlando o parentesco entre as línguas. Línguas aparentadas não são observações independentes, e tratá-las como se fossem infla a correlação. Sob os testes mais estritos, e sem agregar por país, a correlação não se sustenta. Ela resiste a vários outros testes, então não morreu, mas encolheu.
Repare no terceiro nome do segundo artigo. É o mesmo Chen. O autor do achado assina o trabalho que limita o próprio achado, e é por isso que eu conto essa história aqui em vez de contar só a primeira metade. A pergunta estava certa, a resposta é menor do que parecia, e quem cita a manchete cita errado.
Pressa, medo e a tarefa em aberto
Flow pressupõe que ninguém interrompe. Parkinson, que o tempo é seu.
O Estado de flowAumente a dificuldade na mesma velocidade em que a pessoa melhora.Abrir a lei → pressupõe atenção contínua e controle sobre a própria tarefa. Quem é interrompido por ofício — atendimento, plantão, cuidado de outra pessoa — não entra em flow por ajuste de dificuldade. A curva de desafio e habilidade que o flow pressupõe não é a dele.
A Lei de ParkinsonDê limite ao esforço com prazos e metas parciais, reais e não inventados.Abrir a lei → pressupõe que você é dono do seu tempo. Pergunte a quem trabalha por escala.
E o Efeito ZeigarnikSinalize o fim de cada etapa; tarefa em aberto continua ocupando espaço.Abrir a lei → merece um cuidado que ele raramente recebe: tarefa em aberto ocupa a cabeça, e é isso que faz a barra de progresso funcionar. Para quem tem ansiedade, a mesma tarefa em aberto não vira motivação. Vira ruminação. A alavanca é a mesma, e em quem tem ansiedade ela faz o contrário.
As outras cinco dimensões
Onde isto encosta no catálogo