Honestidade
Onde a evidência não alcança
Tudo o que eu afirmo aqui se apoia em evidência sobre o cérebro, e é por isso que eu preciso dizer também onde essa evidência para. Nada disto invalida o que está nas leis e nos fundamentos: o que está em jogo é o tamanho da conclusão que cada achado autoriza, e a diferença entre usar ciência e usá-la como enfeite está inteira aí.
A área que acendeu não conta o que aconteceu
Ativação não identifica o processo mental. A inferência corre no sentido contrário do que se costuma ler.
A leitura mais comum de um estudo de imagem cerebral é também a que a metodologia não permite: a região X ativou durante a tarefa, logo o processo mental associado a X estava acontecendo. O raciocínio inverte a seta. Uma mesma região participa de muitas funções diferentes — a ínsula aparece em nojo, dor, empatia e decisão sob risco —, então a ativação dela não identifica qual delas ocorreu. É a inferência reversa, e ela só se sustenta quando a região é bem específica para aquele processo, o que quase nunca é o caso, como Russell PoldrackNomeou o problema da inferência reversa: ver uma área acender não permite concluir qual processo mental está em curso.Uma referência neste trabalho:2006Can cognitive processes be inferred from neuroimaging dataVer na Wikipédia ↗Ver na bibliografia → mostrou em 2006 num artigo que virou a referência sobre o assunto. Na prática, isso muda a frase que você pode escrever. “O núcleo accumbensO centro do circuito de recompensa. Quando algo dá certo — um botão que responde, uma tarefa que fecha — é ele que registra "valeu a pena, repita".Ver em Emoção →Ver no glossário → foi mobilizado” é defensável; “a pessoa sentiu prazer” já é outra coisa.
Amostra pequena, efeito grande, efeito frágil
Algumas dezenas de participantes: primeira evidência, não constante da natureza.
MarekMostrou que estudos que ligam cérebro a comportamento precisam de milhares de participantes para serem confiáveis, e quase nenhum tem.Uma referência neste trabalho:2022Reproducible brain-wide association studies require thousands of individualsVer na bibliografia → e colegas analisaram, em 2022, bases com milhares de participantes e mostraram que um tipo específico de resultado só estabiliza com amostras na casa dos milhares: correlacionar uma medida do cérebro com um traço de comportamento entre pessoas diferentes. Abaixo disso, os efeitos que aparecem tendem a ser inflados e a não se repetir no estudo seguinte. Comparar duas condições dentro da mesma pessoa exige bem menos gente, e é o desenho de boa parte dos estudos citados aqui. O que continua sem sustentação é o salto seguinte, o de sair de algumas dezenas de participantes num laboratório para uma afirmação sobre gente. Os estudos de neurociência aplicada a interface que eu li rodam quase todos com algumas dezenas de pessoas, e isso não os torna inúteis. Torna cada achado uma primeira evidência, e não uma constante da natureza. A leitura honesta de um estudo desse porte é “aconteceu neste grupo, nesta tarefa”, e a decisão de projeto que se apoia nele deveria ser reversível.
O feitiço da imagem de cérebro
Jargão irrelevante e figura de cérebro deixam qualquer explicação mais convincente.
Deena WeisbergMostrou que uma explicação psicológica ruim fica mais convincente quando se acrescenta uma menção ao cérebro que não explica nada.Uma referência neste trabalho:2008The seductive allure of neuroscience explanationsVer na bibliografia → e colegas apresentaram, em 2008, explicações psicológicas a leigos, algumas com um trecho de jargão neurocientífico logicamente irrelevante enxertado no meio, e as explicações ruins ficaram bem mais convincentes com o enxerto. Com imagens de cérebro o achado equivalente é de McCabeMostrou que uma imagem de cérebro faz um argumento parecer mais científico, mesmo quando não acrescenta nada. O achado não replicou depois.Uma referência neste trabalho:2008Seeing is believing: the effect of brain images on judgments of scientific reasoningVer na bibliografia → e Castel, do mesmo ano, e ele merece a ressalva que eu cobro dos outros: não replicou nas tentativas posteriores, como MichaelTentou replicar o efeito da imagem de cérebro em dez experimentos e não o encontrou. É a correção do achado de McCabe.Uma referência neste trabalho:2013On the (non)persuasive power of a brain imageVer na bibliografia → e colegas mostraram em 2013, enquanto o efeito do jargão replicou. Isso torna o alerta mais preciso, e não menos, porque o que engana não é a figura, é a palavra. Vale para mim tanto quanto para qualquer outra pessoa que escreve sobre isso. Há um cérebro girando na primeira tela daqui, e ele é ilustração, não evidência de nada. Se algum argumento destas páginas convenceu você por causa dele, o argumento não estava pronto.
O quanto foi medido, lei por lei
Um Ps. em cada lei diz se a estrutura foi medida ali ou tomada de outro fenômeno.
As três limitações valem para o campo inteiro, e eu as transformei numa marca que você encontra em cada uma das 38 leis: um Ps. que acompanha o bloco que fala do cérebro e diz uma de duas coisas. Ou o efeito e a estrutura foram medidos na mesma tarefa, que é o caso de três leis e o patamar mais difícil de alcançar. Ou as estruturas são reais e bem estabelecidas, mas foram medidas em outro fenômeno, e a ponte entre um e outro é minha; são vinte e oito, e o Ps. vem com asterisco. As outras sete não têm bloco de cérebro nenhum, e no lugar dele vem uma seção chamada “Por que aqui não há neurociência”, porque efeito comportamental replicado não fica mais verdadeiro com uma estrutura anatômica pendurada, e fica menos defensável. Quem conferir a estrutura e não a encontrar vai descontar o resto junto. É por isso que existem sete dessas, e é a parte das 38 de que eu mais gosto.
E em quem foi medido
A segunda pergunta. Saber o quanto uma lei foi medida não diz em quem.
Há um limite que nenhuma das três alcança, porque ele não é de método, e sim de amostra: saber o quanto um efeito foi medido não diz em quem. São duas perguntas diferentes, e por muito tempo eu só fazia a primeira. A Lei de FittsAlvo importante é alvo grande e perto de onde a mão já está.Abrir a lei → é a mais bem medida daqui e valeu para dois dos seis adultos com paralisia cerebral que a testaram; a uma das três leis em que o efeito e a estrutura foram medidos na mesma tarefa se apoia num estudo feito na Holanda. Nenhum desses estudos mentiu, todos disseram quem mediram. O que se perde é o caminho entre o estudo e a prancheta, e é ali que a população some do enunciado. Essa segunda pergunta tem página própria, O corpo, e o mapa dela é a matriz de 38 leis por seis dimensões. Os seis estudos que medem leis famosas fora do corpo em que elas nasceram estão comentados em Referências.
O que fazer com isso na prática
Quatro cuidados de leitura de dado que valem para qualquer sinal fisiológico.
Nenhuma das limitações recomenda abandonar a evidência; todas recomendam declarar o alcance dela. BrouwerEscreveu as seis recomendações para não errar ao usar sinal fisiológico como medida de estado mental. É a régua de método da página de Limites.Uma referência neste trabalho:2015Using neurophysiological signals that reflect cognitive or affective state: six recommenda…Ver na bibliografia → e colegas resumiram esse cuidado, em 2015, em recomendações que valem para qualquer sinal fisiológico: diga o que a medida capta e o que ela não distingue; compare condições entre si em vez de tratar o valor absoluto como diagnóstico; use mais de uma medida, porque as fraquezas de cada uma são diferentes; e não trate autorrelato e fisiologia como se um validasse o outro, porque quando divergem, a divergência costuma ser o achado. É a mesma disciplina que eu peço na página de ética, aplicada agora à leitura do dado em vez do uso dele. E se sobrar a dúvida de quanto dá para confiar no que está escrito aqui, a resposta é a que eu cobro de qualquer lei. No que está medido, muito; no que é ponte minha, o tanto que eu declarei. Quando você citar uma dessas leis na próxima reunião, de qual dos dois lados do Ps. ela vem?