Pular para o conteúdo
Same Brain
Anterior Viés da saliência Próxima Lei da legibilidade ← Percepção visual e organização

viés

Ilusão de agrupamento

As pessoas tendem a perceber padrões significativos em sequências aleatórias de dados.

Tversky; Kahneman, 1971

Antes de apresentar um padrão nos dados, procure o que o refuta.

Ninguém olha uma nuvem e vê vapor de água em suspensão. Vê um cachorro, um rosto, um mapa do Brasil. A nuvem não tem forma nenhuma, e mesmo assim é impossível não encontrar uma, porque procurar padrão é o que o cérebro faz de graça, o tempo todo, mesmo quando não há padrão para achar. Amos Amos TverskyFez, com Kahneman, os experimentos que fundaram a economia comportamental: ancoragem, disponibilidade, a lei dos pequenos números.3 referências neste trabalho:1973Availability: a heuristic for judging frequency and probability1971Belief in the law of small numbers1974Judgment under uncertainty: heuristics and biasesVer na Wikipédia ↗Ver na bibliografia → e Daniel Daniel KahnemanMetade do trabalho que este catálogo cita passa por ele: ancoragem, disponibilidade, efeito da posse, pico-fim, os dois sistemas.5 referências neste trabalho:2011Thinking, fast and slow1966Pupil diameter and load on memory1993When more pain is preferred to less: adding a better end1990Experimental tests of the endowment effect and the Coase theorem1991Anomalies: the endowment effect, loss aversion, and status quo biasVer na Wikipédia ↗Ver na bibliografia → descreveram a raiz disso em 1971: a gente espera que uma amostra pequena se comporte como uma grande, e por isso lê intenção onde houve só acaso. Três semanas de alta seguida não são uma tendência, do mesmo jeito que aquela nuvem não é um cachorro. Mas alguém vai desenhar a linha de tendência em cima dessas três semanas.

O que o cérebro faz com isso

O mecanismo biológico por trás do efeito, e o quanto dele foi de fato medido.

É uma falha de intuição estatística: sequências realmente aleatórias produzem aglomerados com muito mais frequência do que as pessoas esperam, e o aglomerado é lido como padrão. A detecção de regularidade envolve circuitos pré-frontais e dos gânglios da baseJunto com o cerebelo, guardam o que o corpo aprendeu a fazer sem pensar: digitar, deslizar, alcançar um ícone. É a memória que sobrevive à distração.Ver em Memória →Ver no glossário →. HuettelUma referência neste trabalho:2002Perceiving patterns in random series: dynamic processing of sequence in prefrontal cortexVer na bibliografia → e colegas mediram isso em 2002, com ressonância funcional, e viram o córtex pré-frontalA região atrás da testa, onde a pessoa decide, planeja e sustenta a atenção. Ela mantém uma coisa em foco por vez e inibe o resto: é onde o gargalo da decisão consciente costuma apertar.Ver em Memória →Ver no glossário → montar um modelo dos padrões que aparecem por acaso numa série aleatória e reagir quando a série os quebra, com reação maior quanto maior o padrão que a pessoa acreditou ver. É o mais perto que a neuroimagem chegou deste efeito, e ninguém mediu ainda a versão dele que aparece num painel de métricas.

Esta lei parece não mudar com o corpo

Em quem isso foi medido, e o que muda quando o corpo do outro lado é outro.

Ver a tabela completa →

É viés estatístico e não sensorial, porque depende de repertório com dados e não de visão, audição ou tato. Não depender de sentido não quer dizer não depender de corpo. A evidência fundadora são 84 psicólogos profissionais respondendo a um questionário num congresso, gente treinada em estatística, e o efeito apareceu neles assim mesmo. Quanto ele muda com escolaridade e familiaridade com número ninguém mediu.

Como o design traduz

O que fazer com isso numa tela, sem transformar um achado em regra.

Como medir isso no seu produto

Num painel, duas linhas que sobem juntas parecem uma explicando a outra, e quase nunca são. O que ajuda é dar ao número a companhia que ele precisa para ser lido: a margem de erro, o tamanho da amostra, o período anterior.

Onde vira manipulação

A mesma alavanca, apontada para quem está do outro lado.

O processo de design também está sujeito à ilusão de agrupamento. Ao explorar um problema, o profissional precisa buscar ativamente o que refuta seus achados iniciais, não só o que os confirma. Sem isso, o primeiro padrão que aparecer vira conclusão, e o gráfico que o mostra vira prova.

Onde isso quebra

Onde a lei não vale, vale menos, ou vale ao contrário.

A mesma sensibilidade que inventa padrão no ruído é a que acha padrão de verdade, e desligá-la não é opção nem seria bom. O que dá para fazer é procedimento: dizer, antes de olhar o dado, o que contaria como padrão, e olhar depois.

Um caso

Um produto de verdade em que isto apareceu, com o que aconteceu e onde conferir.

O painel que declarava vencedor onde só havia ruído

Painel de resultados de um teste A/B. Uma linha azul de chance de superar a linha de base oscila ao longo de nove dias, cruzando várias vezes os 95%, com dois picos circulados. A tabela abaixo diz que o teste é inconclusivo.
Um painel de teste A/B da Optimizely oscilando em torno dos 95%, com os dois picos que pareciam resultado
Optimizely · Statistics for the Internet Age · Uso editorial

A Optimizely vende testes A/B, e em 2015 contou por que teve de trocar a estatística do próprio produto. Os clientes olhavam o painel enquanto o teste rodava e paravam assim que uma das versões parecia vencer. A empresa simulou testes em que as duas versões eram idênticas, ou seja, sem nenhuma diferença real para encontrar. Ainda assim, com cinco mil visitantes, mais de 57% desses testes mostravam em algum momento um vencedor ou um perdedor, se o painel fosse olhado a cada visitante. É a ilusão de agrupamento no seu ambiente de trabalho. Duas curvas geradas pelo acaso se separam por um instante, e quem olha lê a separação como padrão e o padrão como resultado. A correção foi mudar o método, com um cálculo que mantém o erro em 3%. Os números vêm de simulação, e a fonte fala em espiar o teste, não em ilusão de agrupamento. O que me interessa é que a ilusão era sistemática o bastante para exigir um redesenho, e que ela nasce no painel.

Pekelis, 2015

Experimente

Uma peça para conferir no seu próprio corpo o que o texto acabou de afirmar.

Encontre o padrão que não existe

Abaixo há três campos de pontos. Olhe com calma e clique naquele que parece formar alguma figura, aglomerado ou desenho — mesmo que vagamente.

O cérebro é uma máquina de achar padrão. O custo aparece diante de dados de verdade: num painel de métricas, a mesma máquina enxerga tendência em oscilação e causa em coincidência.

Conceitos vizinhos

Estruturas medidas neste fenômeno

Estruturas ligadas por ponte minha

Conceitos irmãos

Fontes

Enunciado citado de Tversky; Kahneman, 1971.

  • TVERSKY, A.; KAHNEMAN, D. Belief in the law of small numbers. Psychological Bulletin, v. 76, n. 2, p. 105-110, 1971. DOI

Leitura complementar: Ilusão de agrupamento Wikipédia

Ver a bibliografia completa do trabalho →