lei
Lei da legibilidade
Os caracteres de texto devem ter tamanho, estilo e contraste suficientes para que possam ser lidos com mínimo esforço.
Contraste, corpo e entrelinha vêm antes da escolha da fonte.
Legibilidade não é uma questão de gosto e não se avalia no olho de quem desenhou. Ela depende de tamanho, contraste e espaçamento, e as três coisas têm valores que se medem. Isso importa porque o designer é quase sempre a pessoa em melhores condições de leitura de toda a cadeia: tela boa, sala iluminada, visão descansada, e já sabendo o que está escrito. Quem vai usar pode estar no sol, num aparelho antigo, com pressa ou com quarenta e cinco anos. O texto que passa raspando para você não passa para essa pessoa.
O que o cérebro faz com isso
O mecanismo biológico por trás do efeito, e o quanto dele foi de fato medido.
V1A primeira área do cérebro, lá na nuca, a receber o que o olho enviou. É onde a imagem vira contraste, borda e orientação, antes de você reconhecer o que está vendo.Ver em Sentidos e atenção →Ver no glossário → separa o estímulo por orientação e contraste, e uma região do córtex temporal ventral esquerdo responde de forma seletiva a palavras escritas: é a etapa em que traço vira símbolo. Fonte pequena, contraste baixo ou espaçamento insuficiente encarecem essa passagem, e o custo aparece em tempo de leitura e em taxa de erro. É ali que ele deve ser medido. Retenção já foi tentada como medida de legibilidade pela literatura de disfluência, a partir de 2011, e as replicações deram nulo. Estresse, ninguém chegou a coletar em estudo de legibilidade de interface.
O corpo que esta lei presume
Em quem isso foi medido, e o que muda quando o corpo do outro lado é outro.
Baixa visão, dislexia e presbiopia mudam o mínimo legível, e o que substitui a escolha do designer é o controle da pessoa sobre corpo e espaçamento. O ambiente entra junto, porque o contraste que passa na sua tela calibrada some no sol das duas da tarde. E o que conta como legível muda com a escrita: espaçamento, altura de x e peso não se comportam igual em latim, em árabe e em ideograma. Sobre a fonte “para disléxicos”, o teste existe e deu negativo. KusterComparou a fonte Dyslexie com Arial e Times em crianças com e sem dislexia, e não achou ganho nenhum. As crianças preferiram as outras.Uma referência neste trabalho:2018Dyslexie font does not benefit reading in children with or without dyslexiaVer na bibliografia → e colegas compararam a Dyslexie com Arial e Times em crianças com e sem dislexia e não acharam ganho de velocidade nem de precisão, as crianças até preferiram as outras. O que aparece com efeito é aumentar o espaçamento entre as letras, que não é fonte especial, e sim ajuste que qualquer texto aceita.
Como o design traduz
O que fazer com isso numa tela, sem transformar um achado em regra.
Como medir isso no seu produto
Contraste, corpo, família e espaçamento entre linhas e letras, sempre pensados para o contexto de leitura: o aparelho, a luz do ambiente, a idade e as condições oculares de quem lê. A pergunta útil na revisão é quem está em pior condição de ler isto, e a resposta quase nunca é você, que desenhou. Em tela, a escolha da família rende menos do que promete, porque o que muda desempenho é tamanho, contraste, espaçamento e familiaridade. Antes de escolher a fonte, dê à pessoa controle sobre corpo e espaçamento.
Onde isso quebra
Onde a lei não vale, vale menos, ou vale ao contrário.
Legível não é o mesmo que compreensível. Um texto com contraste perfeito e vocabulário errado passa em qualquer auditoria automática e continua sem ser entendido.
Neuromitos associados
O que circula por aí sobre este conceito, e o que a evidência de fato mostra.
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Lemos pela silhueta da palavra, por isso CAIXA ALTA é ilegível.
O modelo de forma da palavra foi abandonado: a evidência sustenta reconhecimento paralelo das letras, e a região que responde a palavras escritas é invariante a caixa e a fonte. Caixa alta é lida mais devagar, mas por familiaridade, não por silhueta.
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Fontes para disléxicos, como a OpenDyslexic, ajudam o cérebro disléxico a ler.
Os testes controlados não encontram vantagem dessas fontes sobre tipos comuns bem espaçados. O que ajuda de fato é espaçamento maior entre letras e linhas, que qualquer tipografia permite, e que serve a todo mundo.
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Fonte sem serifa é melhor na tela; serifa guia o olho no papel.
A literatura é nula: uma revisão de 72 estudos e meio século de pesquisa não acharam diferença confiável de legibilidade entre as duas. O que muda desempenho é tamanho, contraste, espaçamento e familiaridade.
Um caso
Um produto de verdade em que isto apareceu, com o que aconteceu e onde conferir.
A fonte mais legível que a estrada devolveu
Foto de MPD01605 · via Wikimedia Commons · Domínio público
Em 2004 a agência rodoviária federal dos Estados Unidos aprovou a fonte Clearview para placas de fundo escuro, com base em estudos iniciais que a mostravam mais legível. Em 2016 a mesma agência encerrou a aprovação. As avaliações posteriores não encontraram benefício nas letras mais estreitas e encontraram legibilidade pior que a do alfabeto padrão, sobretudo em fundo claro. A explicação está na página de perguntas da agência. Os ganhos medidos no começo vinham do material refletivo novo das placas, não da letra. Em 2018 o Congresso mandou reinstaurar a aprovação, e a agência registrou que não recomenda nem endossa o estilo. O caso não é de tela, e serve por isso mesmo, porque ali as variáveis ficaram separadas. Trocar só a lâmina retrorrefletiva já rendeu 6% de ganho de legibilidade ao próprio alfabeto padrão. A troca de estilo sozinha não rendeu diferença prática em fundo escuro, e piorou em fundo claro e nos numerais. Antes de escolher a fonte do seu produto, resolva o contraste.
Experimente
Uma peça para conferir no seu próprio corpo o que o texto acabou de afirmar.
Contraste não se avalia no olho
Mude o tamanho e a clareza do texto. O número que aparece embaixo é a razão de contraste, calculada pela fórmula da WCAG — a norma internacional de acessibilidade da web. Ela diz se o texto passa ou reprova.
A retina recebe muito mais do que o cérebro processa de uma vez. Legibilidade é o quanto dessa entrada vira leitura sem esforço, e contraste é a parte que dá para medir.
- Contraste
- 1.05:1
- WCAG AA (4,5:1)
- ✕ reprova — falta 3.45
Os marcos são normativos: no AA, 4,5:1 para texto normal e 3:1 para texto grande; no AAA, 7:1 para texto normal e 4,5:1 para texto grande. A escala vai até 21:1, que é preto puro sobre branco puro.
Contraste não se avalia no olho. O piso da WCAG é 4,5:1 para texto normal, e 3:1 para texto grande. Repare que aumentar o tamanho muda o critério aplicável — a mesma cor pode reprovar num parágrafo e passar num título.
Fontes
Enunciado na forma corrente do campo. Dyson, 2004, mediu a configuração física do texto na tela, o comprimento de linha, as colunas e a entrelinha, e não o corpo nem o contraste.
- DYSON, M. C. How physical text layout affects reading from screen. Behaviour & Information Technology, v. 23, n. 6, p. 377-393, 2004. DOI
Leitura complementar: Legibility, Readability, and Comprehension NN/g em inglês