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Memória, e o quanto ela segura

Memória

Toda interface pede para a pessoa guardar alguma coisa. O código que chegou por SMS, o passo em que ela estava, onde ficava o botão que ela usou semana passada.

Cada pedido desses é um saque numa conta pequena. A memória de trabalhoO espaço mental onde a pessoa segura o que está usando agora. Cabem cerca de quatro coisas, e elas se apagam em segundos se não forem usadas.Ver em Memória →Ver no glossário → segura cerca de quatro itens, e ela já estava ocupada antes de a pessoa abrir o seu produto, com a reunião das três, com o boleto que vence hoje, com o que falta comprar na volta.

É por isso que “simples” quase nunca quer dizer “numa tela só”. Um fluxo de três passos pode ser mais leve que um de um, se o de um exigir que ela segure na cabeça o que leu lá em cima. O que pesa é quanto a pessoa precisa segurar em cada passo.

E o que já está guardado ali dentro não é escolha sua. A pessoa chega com um repertório de outras telas, e é contra ele que a sua vai ser lida.

Como uma memória se forma

Por onde passa uma lembrança, da atenção ao traço que fica.

Tudo o que entra passa primeiro por essa conta pequena, e o saldo dela não fica. Para alguma coisa ficar, precisa ser transferida para outra conta, e quem autoriza a transferência é o hipocampoA estrutura que transforma experiência recente em memória duradoura. Tudo que a sua interface pede para a pessoa lembrar amanhã passa por ele hoje.Ver em Memória →Ver no glossário →, uma estrutura curva no lobo temporal que tem esse nome porque parece um cavalo-marinho. Ele não guarda a lembrança. Ele decide o que merece ser guardado e vai distribuindo pelo córtex, aos poucos, ao longo de horas e de noites de sono, num processo que se chama consolidação. É por isso que a pessoa lembra onde ficava o botão que usou na semana passada e não lembra do código que chegou por SMS há dez minutos. Um foi transferido. O outro nunca saiu da memória de trabalhoO espaço mental onde a pessoa segura o que está usando agora. Cabem cerca de quatro coisas, e elas se apagam em segundos se não forem usadas.Ver em Memória →Ver no glossário →.

Corte sagital do encéfalo com as estruturas do lobo límbico destacadas e nomeadas em português: giro do cíngulo, corpo caloso, tálamo, núcleos hipotalâmicos, hipocampo e amígdala.
O lobo límbico, em corte sagital
OpenStax College; vetorização de Marnanel · Anatomy & Physiology · CC BY 3.0 · rótulos traduzidos para o português

Até onde isso vale

As estruturas e os números são bem estabelecidos, mas foram medidos fora de uma interface. O salto daqui para a tela é meu.

A rota da consolidação foi mapeada em pacientes com lesão de hipocampoA estrutura que transforma experiência recente em memória duradoura. Tudo que a sua interface pede para a pessoa lembrar amanhã passa por ele hoje.Ver em Memória →Ver no glossário → e em roedores com registro celular. Nenhum dos dois estava usando um aplicativo.

Neuromitos associados

  • Cada pessoa tem um estilo de aprendizagem — visual, auditivo, cinestésico — e aprende melhor no seu.

    — dizem por aí

    É o neuromito mais caro do mundo corporativo, e o que falta nele não é sutil: falta o teste. Para a afirmação valer seria preciso mostrar que quem se diz visual aprende mais com material visual do que com auditivo, e que com o auditivo acontece o inverso. Os estudos que montaram esse cruzamento não acharam o efeito. A preferência existe. As pessoas preferem um formato, e preferir não é aprender melhor. O que muda desempenho é o formato caber no material. Mapa se ensina com imagem, sotaque se ensina com som, e isso vale para todo mundo.

  • Usamos só 10% do cérebro.

    — dizem por aí

    Não há uma reserva ociosa esperando ser destravada: imagem cerebral mostra atividade em toda parte, e lesão em qualquer região cobra alguma coisa. O que existe é um limite de outra natureza, e ele está na seção de visão. Disparar um neurônio é caro, e o orçamento do córtex só banca uma fração mínima deles substancialmente ativa ao mesmo tempo. Não sobra capacidade guardada; falta energia para usar tudo de uma vez.

Memória sensorial

Um quarto de segundo de imagem, uns três de som, antes de qualquer consciência.

Antes de qualquer informação chegar à consciência, ela passa por um buffer ultrarrápido, e na visão ele se chama memória icônicaO rastro que uma imagem deixa por cerca de 250 milissegundos depois de sair da tela. É o que permite comparar duas coisas com um piscar de olhos, e o que se perde quando um elemento some rápido demais.Ver em Memória →Ver no glossário →: uma imagem se mantém viva por cerca de 250 milissegundos, na medição que George SperlingMediu a memória sensorial visual e mostrou que ela guarda quase tudo por menos de um segundo.Uma referência neste trabalho:1960The information available in brief visual presentationsVer na Wikipédia ↗Ver na bibliografia → fez em 1960 projetando uma grade de letras por um instante e pedindo que a pessoa relatasse uma linha sorteada depois de a tela apagar. É um quarto de segundo, e é o que permite comparar duas coisas na tela sem olhar duas vezes, porque o segundo olhar ainda alcança o rastro do primeiro. No som a janela é bem maior, algo como três segundos, e é por isso que dá para pedir “repete?” e entender a frase antes de ela ser repetida. Essa retenção breve custa muita energia, e evolutivamente não faria sentido prolongá-la, porque manteríamos detalhes irrelevantes atrapalhando a ação imediata.

Até onde isso vale

O que esta parte afirma foi medido assim mesmo, e os estudos estão na bibliografia.

George SperlingMediu a memória sensorial visual e mostrou que ela guarda quase tudo por menos de um segundo.Uma referência neste trabalho:1960The information available in brief visual presentationsVer na Wikipédia ↗Ver na bibliografia → (1960) mediu projetando uma grade de letras por 50 milissegundos e pedindo, depois de apagada, que a pessoa relatasse uma linha sorteada. O relato completo falhava; o parcial não. Foi assim que se soube que a imagem inteira esteve lá.

Memória de trabalho

Cabem cerca de quatro itens, e o seu formulário disputa com o resto da vida.

A conta pequena de que toda interface saca tem nome técnico, memória de trabalhoO espaço mental onde a pessoa segura o que está usando agora. Cabem cerca de quatro coisas, e elas se apagam em segundos se não forem usadas.Ver em Memória →Ver no glossário →, e tem endereço. Ela depende de circuitos frontoparietaisA dupla que sustenta a memória de trabalho: o pré-frontal segura a informação ativa enquanto o lobo parietal cuida de onde as coisas estão.Ver em Memória →Ver no glossário →, em que regiões do córtex pré-frontalA região atrás da testa, onde a pessoa decide, planeja e sustenta a atenção. Ela mantém uma coisa em foco por vez e inibe o resto: é onde o gargalo da decisão consciente costuma apertar.Ver em Memória →Ver no glossário → mantêm ativos os padrões neuronais enquanto o lobo parietal integra o contexto espacial e sensorial. Em média, seguramos cerca de quatro elementos ao mesmo tempo, no número que CowanRefez a conta de Miller com método melhor e chegou a cerca de quatro itens, não sete. É o número que este site usa.Uma referência neste trabalho:2001The magical number 4 in short-term memoryVer na bibliografia → estabeleceu em 2001 depois de revisar as tarefas de span com o ensaio verbal bloqueado. Não adianta exibir cinco menus complexos de uma vez, porque a memória de trabalho simplesmente não comporta. E mesmo dentro desses poucos segundos, as representações estão sujeitas a ruído sináptico, e distrações e detalhes concorrentes podem apagá-las antes do uso.

Até onde isso vale

O que esta parte afirma foi medido assim mesmo, e os estudos estão na bibliografia.

Os quatro itens vêm de tarefas de span com dígitos, letras e posições numa grade, com bloqueio de ensaio verbal para impedir os truques de agrupamento. Cadeira, fone e tela preta. Nenhum formulário.

Os quatro itens não são quatro campos de formulário. O que cabe é quatro blocos com sentido, e o tamanho de um bloco depende do que a pessoa já sabe: para quem conhece o assunto, uma frase inteira é um item; para quem não conhece, cada palavra é. Por isso a mesma tela cabe folgada num usuário experiente e estoura num novato. E o número cai mais ainda quando a cabeça já está ocupada com pressa, medo ou uma conta para pagar. É o que eu conto no capítulo sobre a condição do corpo, com os agricultores que fizeram os mesmos testes antes e depois da colheita e foram melhor depois.

Memória espacial

Por que mudar um botão de lugar custa mais do que parece.

Uma parte dessa memória é sobre onde as coisas estão, e é a mais antiga de todas. Ligada ao hipocampoA estrutura que transforma experiência recente em memória duradoura. Tudo que a sua interface pede para a pessoa lembrar amanhã passa por ele hoje.Ver em Memória →Ver no glossário →, a memória espacial permite navegar em ambientes físicos e digitais: células de lugar no hipocampo e células de grade no células de lugar e de gradeO GPS interno, no hipocampo e vizinhança. Ele evoluiu para lembrar caminhos até água e comida, e é o mesmo que lembra onde ficava aquele botão na tela anterior.Ver em Memória →Ver no glossário → criam um mapa interno do espaço, usado tanto para lembrar onde clicamos numa interface quanto para voltar à página anterior. Manter padrões de navegação consistentes, com o menu no mesmo lugar em todas as telas, explora esse recurso antigo. E “antigo” aqui é mais forte do que parece. Memória e navegação rodam sobre os mesmos algoritmos neuronais, e a hipótese que BuzsákiDescreveu como o ritmo teta do hipocampo sustenta memória e navegação, a mesma máquina para lembrar e para se orientar no espaço.Uma referência neste trabalho:2013Memory, navigation and theta rhythm in the hippocampal-entorhinal systemVer na bibliografia → e Moser defenderam em 2013 é que os mecanismos de lembrar tenham evoluído a partir dos mecanismos de se orientar no espaço físico. O cérebro não ganhou uma peça nova para lidar com menu e caminho de volta; ele reaproveita a que servia para achar o caminho até a água.

Até onde isso vale

As estruturas e os números são bem estabelecidos, mas foram medidos fora de uma interface. O salto daqui para a tela é meu.

As células de lugar e de gradeO GPS interno, no hipocampo e vizinhança. Ele evoluiu para lembrar caminhos até água e comida, e é o mesmo que lembra onde ficava aquele botão na tela anterior.Ver em Memória →Ver no glossário → e de grade foram registradas em roedores atravessando caixas, e confirmadas em humanos durante navegação em ambientes virtuais. O que se mediu foi gente atravessando corredores com paredes, e não gente usando uma interface.

A memória espacial pressupõe que haja espaço. Quem navega por teclado ou por leitor de tela não tem “canto superior direito”: tem ordem de foco e estrutura de cabeçalho, e o mapa que essa pessoa constrói é sequencial. Mover um botão de lugar custa caro para ela também, só que o custo aparece na ordem, e não na posição. Se o seu argumento para não mexer na tela é espacial, ele cobre uma parte do público, e para o resto você precisa do argumento da ordem de leitura.

Memórias de médio e longo prazo

70% do que a pessoa aprendeu hoje some em 24 horas.

Quando uma informação é repetida ou considerada relevante, o traço deixa o hipocampoA estrutura que transforma experiência recente em memória duradoura. Tudo que a sua interface pede para a pessoa lembrar amanhã passa por ele hoje.Ver em Memória →Ver no glossário → e se instala em áreas do córtex, e a partir daí a memória se divide por tipo de conteúdo. A episódica e a semântica vão se distribuindo pelo neocórtex e, com o tempo, deixam de depender do hipocampo e do córtex temporal medialA parte interna do lobo temporal, hipocampo e vizinhança, por onde fato e episódio passam para virar memória durável. O papel dela é temporário: com o tempo a lembrança vai ficando guardada no córtex e deixa de depender daqui.Ver em Memória →Ver no glossário →; a procedural, ligada a habilidades motoras como digitar e gesticular em telas, se consolida nos gânglios da baseJunto com o cerebelo, guardam o que o corpo aprendeu a fazer sem pensar: digitar, deslizar, alcançar um ícone. É a memória que sobrevive à distração.Ver em Memória →Ver no glossário → e no cerebeloA estrutura na base da nuca que automatiza movimento e sequência. Quanto mais alguém usa o seu produto, mais a operação migra para cá, e mais caro fica mudar o que já virou automatismo.Ver em Memória →Ver no glossário →; a prospectiva, a de lembrar de fazer algo no futuro, envolve redes de planejamento no córtex pré-frontalA região atrás da testa, onde a pessoa decide, planeja e sustenta a atenção. Ela mantém uma coisa em foco por vez e inibe o resto: é onde o gargalo da decisão consciente costuma apertar.Ver em Memória →Ver no glossário →.

O quanto disso sobrevive tem um número, e ele é velho. A curva de esquecimento que EbbinghausMediu a própria memória por anos, com sílabas sem sentido, e desenhou a curva do esquecimento e o efeito da posição serial.Uma referência neste trabalho:1885Über das GedächtnisVer na bibliografia → mediu em 1885, decorando sílabas sem sentido, segue valendo: sem reforço, seja revisão, repetição ou contexto emocional, perdemos até 70% do conteúdo novo em 24 horas, e MurreReplicou a curva do esquecimento de Ebbinghaus mais de um século depois, e ela se manteve.Uma referência neste trabalho:2015Replication and analysis of Ebbinghaus’ forgetting curveVer na bibliografia → e Dros replicaram a curva em 2015 com o mesmo resultado. Sem repetição e sem carga emocional, o traço enfraquece antes de a consolidação terminar, e é o mesmo mecanismo que aparece no capítulo de emoção.

Até onde isso vale

O que esta parte afirma foi medido assim mesmo, e os estudos estão na bibliografia.

EbbinghausMediu a própria memória por anos, com sílabas sem sentido, e desenhou a curva do esquecimento e o efeito da posição serial.Uma referência neste trabalho:1885Über das GedächtnisVer na bibliografia → (1885) mediu em si mesmo, sozinho, decorando sílabas sem sentido e recontando o que sobrava depois de intervalos crescentes. A curva foi replicada mais de um século depois, e continua sendo material sem sentido: é o pior caso, não o caso médio.

Os 70% em 24 horas vêm da curva de Ebbinghaus, que foi replicada mais de um século depois e se manteve, o que é raro e é muito a favor dela. Só que material sem sentido é o pior caso possível. O que a sua interface pede para lembrar quase sempre tem sentido, contexto e repetição, e some mais devagar. Use o número como teto de esquecimento, não como previsão.