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O social, e onde ele distorce

Mente social

Quando o seu produto mostra o que outras pessoas fizeram — a avaliação, a contagem de usuários, o “quem curtiu” —, ele está operando um circuito centenas de milhares de anos mais velho que a internet.

Esse circuito foi calibrado para grupos de cerca de 150 pessoas: o tamanho em que dá para saber quem é quem, quem deve o quê a quem, e de quem vale a pena copiar. Ele continua desse tamanho. O que mudou foi a quantidade de gente que ele é obrigado a processar.

Daí o peso do número social na sua tela. Ele não é enfeite de conversão: é o sinal mais forte que você tem à disposição, e por isso o mais caro de falsificar. Número inventado derruba a confiança em tudo o mais que estiver ali.

O número de Dunbar

Cerca de 150 pessoas, diz a estimativa mais citada. A escala não mudou; as redes só passaram a ignorá-la.

Desde os primeiros agrupamentos de caçadores-coletores, a nossa sobrevivência esteve ligada à capacidade de cooperar em grupos relativamente pequenos, e a estimativa mais citada para o tamanho desses grupos é a de Robin DunbarRelacionou o tamanho do córtex ao tamanho do grupo social estável, e daí veio o número que se repete como cento e cinquenta.Uma referência neste trabalho:1998The social brain hypothesisVer na Wikipédia ↗Ver na bibliografia →, de 1998: relações sociais estáveis com algo em torno de 150 pessoas. Para sustentar essas conexões, o cérebro recruta circuitos próprios. A rede de mentalizaçãoO circuito que infere o que se passa na cabeça dos outros: intenções, crenças, desejos. É o que entra em jogo quando a interface tem gente do outro lado, na avaliação, no comentário, no número de quem já comprou.Ver em Mente social →Ver no glossário →, temporoparietal e no córtex pré-frontal medialA parte do pré-frontal que pensa sobre pessoas: o que os outros querem, o que eles pensam de nós, se dá para confiar neles.Ver em Mente social →Ver no glossário →, é a que infere o que o outro quer e pensa, no mapa que FrithDescreveu a base neural do mentalizar, a máquina de inferir a intenção do outro, que a Ilusão de transparência mostra falhando.Uma referência neste trabalho:2006The neural basis of mentalizingVer na bibliografia → e Frith consolidaram em 2006. Costuma vir junto a menção aos neurônios-espelhoCélulas que disparam tanto quando você faz algo quanto quando vê outra pessoa fazendo. Foram propostas como a base da imitação e da empatia, leitura que a própria área já corrigiu, e o que sobrou é que ver alguém agir ativa em parte o sistema de quem age.Ver em Mente social →Ver no glossário →, nos córtices frontal e parietal, e aqui convém segurar a mão. O fenômeno é sólido, e ver alguém agir ativa parcialmente o sistema de quem age, como RizzolattiDescreveu o sistema de neurônios-espelho, e é dele a base — muito citada e muito exagerada — da leitura de intenção.Uma referência neste trabalho:2004The mirror-neuron systemVer na bibliografia → e Craighero revisaram em 2004. Mas a leitura popular, de que eles explicariam empatia e leitura de intenção, foi muito além do que os dados sustentam, e a área passou por uma correção forte. O que sobra de aplicável é a ativação parcial do sistema de quem age.

No fundo, é economia de energia. Rastrear conscientemente cada detalhe do comportamento de todos seria caro demais, então o cérebro recorre a atalhos que selecionam o essencial: quem tende a cooperar, quem representa risco, quem oferece apoio.

Vista lateral do encéfalo com os quatro lobos identificados por cor: frontal, parietal, temporal e occipital, além do cerebelo e do tronco cerebral.
Os lobos do córtex cerebral
frontal (planejamento e decisão) · parietal (espaço e atenção) · temporal (audição, linguagem e memória) · occipital (visão)
OpenStax · Anatomy and Physiology (2016) · CC BY 4.0

Até onde isso vale

As estruturas e os números são bem estabelecidos, mas foram medidos fora de uma interface. O salto daqui para a tela é meu.

O 150 de Robin DunbarRelacionou o tamanho do córtex ao tamanho do grupo social estável, e daí veio o número que se repete como cento e cinquenta.Uma referência neste trabalho:1998The social brain hypothesisVer na Wikipédia ↗Ver na bibliografia → (1998) não foi medido em ninguém. Os circuitos sociais citados aqui vêm de imagem funcional com fotos de rostos e jogos econômicos de laboratório.

O argumento vale para relação que cobra reciprocidade: saber quem é quem, quem deve o quê a quem. Uma boa parte do que a rede social conta como conexão não é isso. Seguir alguém não cria obrigação nenhuma, e caber num número de seguidores não diz nada sobre caber num circuito social. Antes de usar este capítulo para justificar um limite de lista, pergunte de qual dos dois tipos é a relação que o seu produto cria.

Neuromitos associados

  • O cérebro humano comporta exatamente 150 relações. É o número de Dunbar.

    — dizem por aí

    O 150 não foi contado em ninguém: ele é a extrapolação de uma reta que relaciona tamanho de neocórtex e tamanho de grupo em primatas, estendida até o ponto onde estaria o humano. LindenforsRefez a extrapolação que produz o número de Dunbar e achou intervalos de confiança tão largos que o limite não se sustenta.Uma referência neste trabalho:2021“Dunbar’s number” deconstructedVer na bibliografia →, Wartel e LindRevisou o viés de apoio à escolha e separou quatro formas dele, só uma tem apoio sólido, o que estreita bastante a lei.Uma referência neste trabalho:2017Choice-supportive misremembering: a new taxonomy and reviewVer na bibliografia → (2021) refizeram a conta e chegaram a médias de 69 a 109 pessoas pelo método bayesiano e de 16 a 42 pelos mínimos quadrados filogenéticos, com intervalos de confiança de 4 a 520 e de 2 a 336. A conclusão deles é que não dá para derivar um limite cognitivo de tamanho de grupo por esse caminho. O que sobrevive, e é o que este capítulo usa, é a forma do argumento: o circuito social foi calibrado para grupos pequenos e agora processa milhares. Nenhuma decisão de projeto aqui depende do número ser 150.

Empatia e alteridade

Duas empatias, uma rápida e uma lenta. A interface só alcança a lenta.

Empatia é sentir-se ou imaginar-se como o outro. Alteridade é reconhecer-se diferente dele. As duas são necessárias, e é a segunda que quase nunca aparece num processo de design.

A empatia emocional é visceral e imediata: sentimos o que o outro sente. É ótima entre duas pessoas e é ruim como bússola de projeto, porque ela não distribui parelho. Paul BloomReuniu o caso contra a empatia como guia moral: sentir com o outro puxa para quem se parece com a gente e some para quem é muitos ou distante.Uma referência neste trabalho:2016Against empathy: the case for rational compassionVer na bibliografia → reuniu o argumento em Against Empathy (“Contra a empatia”, 2016): a gente sente mais por quem se parece com a gente, fala a nossa língua e está na nossa frente. E sente menos, não mais, quando o número cresce. Uma criança com nome e rosto comove mais que dez mil sem nome, e é assim que o mecanismo funciona.

Numa sala de projeto isso tem consequência e nenhum nome: o usuário que a equipe consegue imaginar ganha o fluxo, e o que ela não consegue imaginar some do escopo sem que ninguém tenha decidido isso. Ninguém votou contra ele.

É por isso que existe persona, e é por isso que uma só não basta. A persona é a tentativa de dar rosto a quem a equipe não consegue imaginar sozinha, e ela funciona na medida em que vem de pesquisa e não de suposição: feita de dentro da sala, ela reproduz o mesmo viés com cara de método. A cura é a mesma da empatia, menos gente parecida com você na amostra. É o que a entrevista com usuários extremos faz de propósito.

A empatia cognitiva é deliberada: a gente se coloca no lugar do outro de propósito, imaginando motivações, restrições e objetivos. Corre na rede de mentalizaçãoO circuito que infere o que se passa na cabeça dos outros: intenções, crenças, desejos. É o que entra em jogo quando a interface tem gente do outro lado, na avaliação, no comentário, no número de quem já comprou.Ver em Mente social →Ver no glossário →, que junta o córtex pré-frontal medialA parte do pré-frontal que pensa sobre pessoas: o que os outros querem, o que eles pensam de nós, se dá para confiar neles.Ver em Mente social →Ver no glossário → ao temporoparietal, e é mais lenta justamente porque é construída. É ela que permite entender quem tem repertório diferente do seu sem depender de se comover, e é por isso que, em design, ela rende mais: dá distanciamento e abre espaço para dado.

Mas as duas continuam sendo eu me projetando em você. A alteridade começa em outro lugar. A empatia parte da identificação; a alteridade parte do contrário: o outro não é um reflexo meu, e a experiência dele não dá para simular inteira. Dá para perguntar. Quando um designer diz “eu me coloquei no lugar do usuário”, ele descreveu um método de uma pessoa só, com uma amostra de uma pessoa só, e ela é ele.

De qual corpo você estava falando quando se colocou no lugar dele? É a pergunta que O corpo, a seção deste site que investiga isso, faz ao catálogo, e que aqui você faz ao seu próprio processo. Chamo de catálogo, e não de leis, porque lei é o que a gente para de questionar.

E o cérebro social não escolhe entre as duas: usa a rápida o tempo todo e a lenta quando sobra. Essa defasagem, entre o grupo pequeno para o qual o circuito foi calibrado e a escala de hoje, tem nome na literatura, e é a hipótese do descompasso evolutivo. Um mecanismo que resolvia bem o ambiente em que foi moldado passa a devolver resposta ruim quando o ambiente muda mais rápido do que ele, na formulação de LiOrganizou a hipótese do descompasso evolutivo: mecanismo moldado num ambiente devolve resposta ruim quando o ambiente muda mais rápido que ele.Uma referência neste trabalho:2018The evolutionary mismatch hypothesis: implications for psychological scienceVer na bibliografia →, van Vugt e Colarelli, de 2018. A empatia emocional é um caso limpo disso. Ela foi calibrada para quem está por perto, porque por dezenas de milhares de anos quem estava por perto era praticamente todo mundo que a pessoa conheceria na vida. Hoje o mesmo mecanismo é apresentado a milhões por dia e responde escolhendo um.

Essa hipótese organiza bem o que se observa, e não foi medida do jeito que um experimento mede. Não dá para rodar o Pleistoceno de novo com grupo de controle, e por isso ela serve de lente, e não de prova. A empatia cognitiva é a que alcança quem não está por perto, e custa atenção, tempo e disposição, que é exatamente o que falta numa terça-feira de entrega. A alteridade não é uma terceira empatia. É o que impede a cognitiva de virar a emocional disfarçada, lembrando que a simulação tem limite e que atrás do limite existe alguém para perguntar.

Até onde isso vale

Raciocínio meu a partir do mecanismo. Não achei estudo que tivesse medido isto assim.

A separação entre empatia emocional e cognitiva é bem estabelecida na literatura, e o argumento contra usar a emocional como bússola é de BloomReuniu o caso contra a empatia como guia moral: sentir com o outro puxa para quem se parece com a gente e some para quem é muitos ou distante.Uma referência neste trabalho:2016Against empathy: the case for rational compassionVer na bibliografia → (2016). O que eu tiro dela para projeto é meu. Não achei estudo que tivesse medido o que acontece com o escopo de um produto quando a equipe usa uma ou outra.

Neuromitos associados

  • Neurônios-espelho criam empatia e leem a intenção de quem usa.

    — dizem por aí

    Comece pelo que é verdade, porque é bastante. Ver alguém agir ativa parcialmente o sistema de quem age, e isso é sólido. Quando você assiste a um vídeo de alguém batendo o dedinho do pé e recua na cadeira, tem coisa acontecendo mesmo: SingerMediu gente vendo a pessoa amada receber um choque e separou o que dói de o quanto incomoda: só a segunda parte acende em quem assiste.Uma referência neste trabalho:2004Empathy for pain involves the affective but not sensory components of painVer na bibliografia → e colegas (2004) mediram gente vendo a pessoa amada receber um choque, e as áreas que registram o quanto a dor incomoda acenderam iguais às de quem estava levando o choque. As que registram onde dói, não. Você sente o desagrado, não a pancada, e é por isso que dá para assistir sem sair mancando.

    O que foi longe demais é a conclusão. A leitura popular fez dos espelhos a base da empatia, da linguagem e da cultura, e a área passou por uma correção forte. Ativação compartilhada não é a mesma coisa que entender a intenção do outro, e nada disso explica por que a empatia é enviesada do jeito que é. Sobra o modesto, e o modesto é útil. Para quem projeta a diferença é prática: dá para dizer que a pessoa reagiu ao que viu; não dá para dizer que ela entendeu o que o outro queria.

    Isto é a mesma forma de erro que Onde a evidência não alcança descreve: uma estrutura real, um achado real, e uma ponte que ficou grande demais para o pilar. E eu não estou de fora dela. Gravei em 2020 uma conversa sobre empatia e alteridade que continua valendo no argumento e tem imprecisões na parte do mecanismo, do tipo que esta seção corrige. Deixo o link porque tirar seria mais fácil e menos honesto: é o mesmo movimento que este site pede de quem cita uma lei sem olhar a amostra.

Redes sociais e falsa proximidade

Proximidade falsa: o software social rodando fora da escala para que foi feito.

As redes digitais exploram esse software social herdado. Ao deixar que a gente siga milhares de perfis, elas criam uma ilusão de proximidade: acreditamos conhecer pessoas com quem nunca trocamos mais do que um “curtir”. A escala do circuito social não mudou, e o cérebro continua processando essas informações como se pertencêssemos a grupos pequenos.

Disso decorrem dois efeitos. O primeiro é a falsa proximidade, porque ao ver histórias de desconhecidos lado a lado com as de amigos íntimos atribuímos a ambos a mesma confiança. O segundo é a sinalização social em alta velocidade, já que o que antes circulava boca a boca, num ritmo que dava para conferir, agora atinge escala global em segundos, sem filtro humano.

Um produto que estimula interação social precisa levar isso em conta, e o que eu proponho é modesto: realçar laços estreitos em vez de exibir todos os seguidores, sinalizar quando um comentário vem do círculo real, e evitar notificação sobre gente sem vínculo. É recriar, digitalmente, o que acontecia em grupos pequenos, sem sobrecarregar o sistema natural de filtragem social.

Até onde isso vale

Raciocínio meu a partir do mecanismo. Não achei estudo que tivesse medido isto assim.

Aqui não há estudo por trás: é leitura minha do que acontece quando um circuito calibrado para dezenas de pessoas passa a processar milhares. Procurei medição e não achei.