lei
Lei da similaridade
O olho humano tende a perceber elementos semelhantes em cor, forma ou textura como parte de um mesmo grupo, mesmo que estejam separados.
Mesmo tratamento visual quer dizer mesma função, ainda que os elementos estejam longe um do outro.
Elementos parecidos são lidos como se fizessem a mesma coisa, mesmo que nada diga isso. Dois botões com a mesma cor e o mesmo formato viram, aos olhos de quem chega, duas ações do mesmo tipo. O contrário também vale, e é o erro mais comum: quando itens da mesma família são desenhados de jeitos diferentes, a pessoa deduz uma diferença de função que não existe. Quem chega lê a aparência antes do rótulo, e age pelo que ela promete.
O que o cérebro faz com isso
O mecanismo biológico por trás do efeito, e o quanto dele foi de fato medido.
O V1A primeira área do cérebro, lá na nuca, a receber o que o olho enviou. É onde a imagem vira contraste, borda e orientação, antes de você reconhecer o que está vendo.Ver em Sentidos e atenção →Ver no glossário →, o V1, tem colunas de neurônios que respondem a orientações específicas, e isso é sólido. Mas o agrupamento por semelhança acontece adiante, nas áreas occipitotemporais que representam forma e cor como propriedades de objeto. A explicação comum em material de divulgação é que neurônios que disparam juntos marcam o mesmo objeto. Essa hipótese existe na literatura, é contestada há duas décadas e não é consenso. O efeito perceptual é robusto, e o mecanismo não está fechado.
O corpo que esta lei presume
Em quem isso foi medido, e o que muda quando o corpo do outro lado é outro.
Agrupar por cor falha para quem não distingue matiz, e a WCAG trata isso como requisito, não como preferência: cor nunca pode ser o único jeito de dizer alguma coisa. O número que se repete nessa hora — 8% dos homens — também presume um corpo. Ele vem de populações de ancestralidade norte-europeia; o levantamento global de AlmustanyirLevantou a prevalência de daltonismo por região e ancestralidade, e é dele o dado que mostra que o famoso "8% dos homens" vale para uma população, não para todas.Uma referência neste trabalho:2025A global perspective of color vision deficiency: awareness, diagnosis, and lived experiencesVer na bibliografia → mede 9,2% entre homens russos, 4% entre japoneses, 2,2% em Durban e 1,7% no Congo. A estatística que o designer usa para defender acessibilidade depende da população medida. E o limiar em que duas cores viram a mesma cor não é fixo. WinawerComparou falantes de russo e de inglês distinguindo azuis. Os russos foram mais rápidos, e a vantagem sumia sob tarefa verbal concorrente.Uma referência neste trabalho:2007Russian blues reveal effects of language on color discriminationVer na bibliografia → e colegas mediram falantes de russo, língua que separa dois azuis que o português junta num só. Eles distinguem mais rápido dois azuis que caem em categorias diferentes do russo do que dois azuis da mesma categoria, vantagem que falantes de inglês não têm nos mesmos estímulos e que some quando a pessoa faz uma tarefa verbal ao mesmo tempo. Agrupar por forma, por peso ou por posição sobrevive inteiro.
Como o design traduz
O que fazer com isso numa tela, sem transformar um achado em regra.
Como medir isso no seu produto
Para que “Salvar” e “Enviar” sejam lidos como ações do mesmo nível, basta que compartilhem cor, formato e tratamento de borda, mesmo que estejam em cantos opostos da tela. O contrário também é ferramenta, e é onde mais se erra: se “Excluir” tem a mesma cara de “Salvar”, a pessoa espera o mesmo tipo de consequência, e a aparência prometeu o que o botão não cumpre.
Onde isso quebra
Onde a lei não vale, vale menos, ou vale ao contrário.
Se tudo recebe o mesmo tratamento visual, tudo vira o mesmo grupo e a hierarquia desaparece. Semelhança em excesso deixa a pessoa sem pista de por onde começar.
Um caso
Um produto de verdade em que isto apareceu, com o que aconteceu e onde conferir.
O teste e o alerta real na mesma lista
HI-EMA · imagem divulgada pelo estado, via Hawaii News Now · Uso editorial
Em 13 de janeiro de 2018, um operador da agência de emergências do Havaí mandou ao estado inteiro um alerta de míssil balístico durante um exercício interno. O relatório da FCC descreve a tela. O modelo do alerta real ficava na mesma lista suspensa que o modelo de teste, com a mesma aparência, e a confirmação seguinte perguntava apenas se tinha certeza, com a mesma mensagem para os dois casos e sem mostrar o texto que sairia. A FCC compara com o que outros fornecedores fazem para separar teste de produção, como marca d’água, cor diferente e um ambiente real hospedado à parte. A agência atribui o episódio a erro humano somado a salvaguardas inadequadas, e a interface era uma das salvaguardas que faltaram. Duas opções com a mesma cara prometem a mesma consequência. Quando a consequência é oposta, a semelhança faz o operador escolher a linha errada, que foi o que aconteceu aqui.
Experimente
Uma peça para conferir no seu próprio corpo o que o texto acabou de afirmar.
O que se parece fica junto, mesmo separado
O espaçamento desta grade é uniforme e nunca muda — nem entre linhas, nem entre colunas. Escolha qual atributo varia e repare que o agrupamento aparece assim mesmo.
Nada varia: a grade parece uniforme, sem grupo nenhum.
Repare que forma e tamanho também agrupam, ainda que menos que cor, que costuma ser a pista de semelhança mais forte. As duas carregam a informação sozinhas, e é por isso que os três estão aqui. Uma interface que só agrupa por matiz não agrupa nada para quem não distingue aquele matiz; a mesma informação precisa aparecer também em forma, tamanho ou texto.
Conceitos vizinhos
Estruturas ligadas por ponte minha
Conceitos irmãos
Fontes
Enunciado formulado por Wertheimer, 1923, e consolidado por Koffka, 1935. A frase é a redação corrente no campo, não citação literal de nenhum dos dois.
- KOFFKA, K. Principles of Gestalt psychology. New York: Harcourt Brace, 1935. DOI
- WERTHEIMER, M. Untersuchungen zur Lehre von der Gestalt II. Psychologische Forschung, v. 4, p. 301-350, 1923. DOI
Leitura complementar: Law of Similarity Laws of UX em inglês