lei
Lei da Prägnanz
A organização perceptual será sempre tão “boa” quanto as condições vigentes permitirem.
Se a tela não se explica em wireframe, não é a cor que vai resolver.
Prägnanz quer dizer algo como "boa forma", e KoffkaEscreveu o tratado que consolidou a Gestalt, de onde vêm proximidade, similaridade, continuidade e boa forma.Uma referência neste trabalho:1935Principles of Gestalt psychologyVer na bibliografia → admitiu no próprio livro que essa palavra ficava sem definição. A tradição posterior leu a boa forma como a interpretação mais simples que dê conta da imagem, e é essa a leitura útil para quem desenha tela. É a razão de você enxergar dois círculos sobrepostos em vez de uma figura recortada de contorno estranho. Para quem projeta, isso funciona como teste: se a estrutura da tela não sobrevive a ser vista de longe, borrada ou em wireframe cru, ela não está resolvida na forma. Está sendo sustentada por cor, texto ou detalhe, que são as camadas que a pessoa lê depois.
O que o cérebro faz com isso
O mecanismo biológico por trás do efeito, e o quanto dele foi de fato medido.
O princípio descreve uma regularidade da percepção: diante de um estímulo ambíguo, o sistema visual converge para a interpretação de menor carga descritiva, a que precisa de menos informação para ser especificada. Isso é uma formulação computacional, não anatômica, e é o que a torna testável. Ela é uma das duas leituras em disputa há décadas, e a outra diz que o sistema escolhe a interpretação mais provável no mundo em que a gente vive, e não a mais econômica de descrever. Nas figuras clássicas as duas previsões coincidem, e é por isso que a disputa não terminou. A etapa em que essa organização acontece é conhecida, V1A primeira área do cérebro, lá na nuca, a receber o que o olho enviou. É onde a imagem vira contraste, borda e orientação, antes de você reconhecer o que está vendo.Ver em Sentidos e atenção →Ver no glossário → e V2A área logo depois de V1. Junta as bordas que V1 detectou, separa figura de fundo e decide quais elementos formam um grupo, tudo isso antes de você perceber que olhou.Ver em Sentidos e atenção →Ver no glossário →, onde o córtex visual agrupa e segrega antes de a pessoa relatar o que viu, como RoelfsemaUma referência neste trabalho:2006Cortical algorithms for perceptual groupingVer na bibliografia → revisou em 2006. Nenhuma estrutura conhecida implementa a preferência pela forma mais simples, e falar em “esforço” ou em “sobrecarga” de uma área visual é metáfora, não medida. A ligação entre essas áreas e a boa forma é ponte minha.
O corpo que esta lei presume
Em quem isso foi medido, e o que muda quando o corpo do outro lado é outro.
A lei descreve o que o olho faz com a forma, e isso vale para quem enxerga a tela. Para quem navega por leitor de tela não há forma a simplificar, e a mesma pergunta troca de lugar. Em vez de perguntar se a tela se explica em wireframe, pergunte se ela se explica na árvore de títulos.
Como o design traduz
O que fazer com isso numa tela, sem transformar um achado em regra.
Como medir isso no seu produto
Uma interface fragmentada, com hierarquia de texto confusa e campos espalhados, obriga a pessoa a procurar contorno onde deveria haver forma. O teste é simples e cabe em qualquer revisão: reduza a tela a um wireframe, tire cor, texto e ícone, e olhe de longe. Se a estrutura ainda comunica o que é título, o que é grupo e o que é ação, a boa forma está lá. Se só a cor estava segurando, o problema aparece na revisão e não no uso.
Onde isso quebra
Onde a lei não vale, vale menos, ou vale ao contrário.
O cérebro simplifica pelo caminho mais barato, não pelo mais correto. Uma forma ambígua sempre será resolvida, só não necessariamente do jeito que você quis.
Um caso
Um produto de verdade em que isto apareceu, com o que aconteceu e onde conferir.
O mapa mais simples vence a experiência de quem anda de metrô
Diagrama de Sameboat · via Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0
O mapa do metrô de Londres reduz a cidade a ângulos de 45 e 90 graus e a distâncias equalizadas. É isso que o torna legível, e é também o que engana. Zhan Guo cruzou o mapa com 18.894 viagens registradas e mediu quanto a distância no mapa pesa na escolha do caminho em comparação com o tempo real de viagem. Pesa o dobro. De Paddington a Bond Street, mais de 30% dos passageiros escolhem um caminho cerca de 15% mais lento, que sai na direção oposta ao destino, porque no mapa ele parece 10% mais curto. Para quem usa o metrô cinco ou mais dias por semana o efeito diminui, mas continua maior que o da própria experiência. A lei fala de figuras ambíguas resolvidas pela forma mais simples. Aqui a forma simples foi projetada, e o cérebro a tomou como território. Quando você simplifica um mapa, um gráfico ou um fluxo, a simplificação passa a valer mais que a realidade que ela representa, e nem a rotina desfaz isso.
Experimente
Uma peça para conferir no seu próprio corpo o que o texto acabou de afirmar.
Quantas formas você está vendo?
Olhe a figura e conte as formas antes de mexer em nada. Depois separe as peças e confira se era isso mesmo.
Conte as formas antes de separar.
O cérebro não devolve o que está na tela: devolve a interpretação mais simples compatível com o que está na tela. Isso é uma economia enorme e é também o que faz um layout ambíguo ser lido com confiança, e errado. Quando a leitura mais simples de uma tela não é a que você quis dizer, quem lê rápido vai embora com a leitura errada, por mais correto que esteja o alinhamento.
Conceitos vizinhos
Estruturas ligadas por ponte minha
Conceitos irmãos
Fontes
Enunciado citado de Koffka, 1935.
- KOFFKA, K. Principles of Gestalt psychology. New York: Harcourt Brace, 1935. DOI
Leitura complementar: Law of Prägnanz Laws of UX em inglês