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lei

Lei da legibilidade

Os caracteres de texto devem ter tamanho, estilo e contraste suficientes para que possam ser lidos com mínimo esforço.

Dyson, 2004

Contraste, corpo e entrelinha vêm antes da escolha da fonte.

Legibilidade não é uma questão de gosto e não se avalia no olho de quem desenhou. Ela depende de tamanho, contraste e espaçamento, e as três coisas têm valores que se medem. Isso importa porque o designer é quase sempre a pessoa em melhores condições de leitura de toda a cadeia: tela boa, sala iluminada, visão descansada, e já sabendo o que está escrito. Quem vai usar pode estar no sol, num aparelho antigo, com pressa ou com quarenta e cinco anos. O texto que passa raspando para você não passa para essa pessoa.

O que o cérebro faz com isso

O mecanismo biológico por trás do efeito, e o quanto dele foi de fato medido.

V1A primeira área do cérebro, lá na nuca, a receber o que o olho enviou. É onde a imagem vira contraste, borda e orientação, antes de você reconhecer o que está vendo.Ver em Sentidos e atenção →Ver no glossário → separa o estímulo por orientação e contraste, e uma região do córtex temporal ventral esquerdo responde de forma seletiva a palavras escritas: é a etapa em que traço vira símbolo. Fonte pequena, contraste baixo ou espaçamento insuficiente encarecem essa passagem, e o custo aparece em tempo de leitura e em taxa de erro. É ali que ele deve ser medido. Retenção já foi tentada como medida de legibilidade pela literatura de disfluência, a partir de 2011, e as replicações deram nulo. Estresse, ninguém chegou a coletar em estudo de legibilidade de interface.

O corpo que esta lei presume

Em quem isso foi medido, e o que muda quando o corpo do outro lado é outro.

Ver a tabela completa →

uma viaum lugaruma cultura

Baixa visão, dislexia e presbiopia mudam o mínimo legível, e o que substitui a escolha do designer é o controle da pessoa sobre corpo e espaçamento. O ambiente entra junto, porque o contraste que passa na sua tela calibrada some no sol das duas da tarde. E o que conta como legível muda com a escrita: espaçamento, altura de x e peso não se comportam igual em latim, em árabe e em ideograma. Sobre a fonte “para disléxicos”, o teste existe e deu negativo. KusterComparou a fonte Dyslexie com Arial e Times em crianças com e sem dislexia, e não achou ganho nenhum. As crianças preferiram as outras.Uma referência neste trabalho:2018Dyslexie font does not benefit reading in children with or without dyslexiaVer na bibliografia → e colegas compararam a Dyslexie com Arial e Times em crianças com e sem dislexia e não acharam ganho de velocidade nem de precisão, as crianças até preferiram as outras. O que aparece com efeito é aumentar o espaçamento entre as letras, que não é fonte especial, e sim ajuste que qualquer texto aceita.

Como o design traduz

O que fazer com isso numa tela, sem transformar um achado em regra.

Contraste, corpo, família e espaçamento entre linhas e letras, sempre pensados para o contexto de leitura: o aparelho, a luz do ambiente, a idade e as condições oculares de quem lê. A pergunta útil na revisão é quem está em pior condição de ler isto, e a resposta quase nunca é você, que desenhou. Em tela, a escolha da família rende menos do que promete, porque o que muda desempenho é tamanho, contraste, espaçamento e familiaridade. Antes de escolher a fonte, dê à pessoa controle sobre corpo e espaçamento.

Onde isso quebra

Onde a lei não vale, vale menos, ou vale ao contrário.

Legível não é o mesmo que compreensível. Um texto com contraste perfeito e vocabulário errado passa em qualquer auditoria automática e continua sem ser entendido.

Neuromitos associados

O que circula por aí sobre este conceito, e o que a evidência de fato mostra.

  • Lemos pela silhueta da palavra, por isso CAIXA ALTA é ilegível.

    — dizem por aí

    O modelo de forma da palavra foi abandonado: a evidência sustenta reconhecimento paralelo das letras, e a região que responde a palavras escritas é invariante a caixa e a fonte. Caixa alta é lida mais devagar, mas por familiaridade, não por silhueta.

  • Fontes para disléxicos, como a OpenDyslexic, ajudam o cérebro disléxico a ler.

    — dizem por aí

    Os testes controlados não encontram vantagem dessas fontes sobre tipos comuns bem espaçados. O que ajuda de fato é espaçamento maior entre letras e linhas, que qualquer tipografia permite, e que serve a todo mundo.

  • Fonte sem serifa é melhor na tela; serifa guia o olho no papel.

    — dizem por aí

    A literatura é nula: uma revisão de 72 estudos e meio século de pesquisa não acharam diferença confiável de legibilidade entre as duas. O que muda desempenho é tamanho, contraste, espaçamento e familiaridade.

Um caso

Um produto de verdade em que isto apareceu, com o que aconteceu e onde conferir.

A fonte mais legível que a estrada devolveu

Duas placas verdes suspensas sobre uma rodovia. Na da esquerda, as linhas South, Danville Expressway estão em letras maiúsculas do alfabeto padrão, e os nomes Greensboro e Martinsville em Clearview, com minúsculas mais abertas. Na da direita, Blairs e Danville também em Clearview, com uma seta apontando para a saída.
As duas fontes na mesma placa, em Danville, Virgínia, em 2007: os nomes das cidades em Clearview, as linhas de cima no alfabeto padrão
Foto de MPD01605 · via Wikimedia Commons · Domínio público

Em 2004 a agência rodoviária federal dos Estados Unidos aprovou a fonte Clearview para placas de fundo escuro, com base em estudos iniciais que a mostravam mais legível. Em 2016 a mesma agência encerrou a aprovação. As avaliações posteriores não encontraram benefício nas letras mais estreitas e encontraram legibilidade pior que a do alfabeto padrão, sobretudo em fundo claro. A explicação está na página de perguntas da agência. Os ganhos medidos no começo vinham do material refletivo novo das placas, não da letra. Em 2018 o Congresso mandou reinstaurar a aprovação, e a agência registrou que não recomenda nem endossa o estilo. O caso não é de tela, e serve por isso mesmo, porque ali as variáveis ficaram separadas. Trocar só a lâmina retrorrefletiva já rendeu 6% de ganho de legibilidade ao próprio alfabeto padrão. A troca de estilo sozinha não rendeu diferença prática em fundo escuro, e piorou em fundo claro e nos numerais. Antes de escolher a fonte do seu produto, resolva o contraste.

FHWA, Federal Register, 2016

Experimente

Uma peça para conferir no seu próprio corpo o que o texto acabou de afirmar.

Contraste não se avalia no olho

Mude o tamanho e a clareza do texto. O número que aparece embaixo é a razão de contraste, calculada pela fórmula da WCAG — a norma internacional de acessibilidade da web. Ela diz se o texto passa ou reprova.

A retina recebe muito mais do que o cérebro processa de uma vez. Legibilidade é o quanto dessa entrada vira leitura sem esforço, e contraste é a parte que dá para medir.

Contraste
1.05:1
WCAG AA (4,5:1)
✕ reprova — falta 3.45
3:1 4,5:1 7:1

Os marcos são normativos: no AA, 4,5:1 para texto normal e 3:1 para texto grande; no AAA, 7:1 para texto normal e 4,5:1 para texto grande. A escala vai até 21:1, que é preto puro sobre branco puro.

Contraste não se avalia no olho. O piso da WCAG é 4,5:1 para texto normal, e 3:1 para texto grande. Repare que aumentar o tamanho muda o critério aplicável — a mesma cor pode reprovar num parágrafo e passar num título.

Conceitos vizinhos

Estruturas ligadas por ponte minha

Conceitos irmãos

Fontes

Enunciado na forma corrente do campo. Dyson, 2004, mediu a configuração física do texto na tela, o comprimento de linha, as colunas e a entrelinha, e não o corpo nem o contraste.

  • DYSON, M. C. How physical text layout affects reading from screen. Behaviour & Information Technology, v. 23, n. 6, p. 377-393, 2004. DOI

Leitura complementar: Legibility, Readability, and Comprehension NN/g em inglês

Ver a bibliografia completa do trabalho →