princípio
Navalha de Occam
A melhor solução é aquela que apresenta a menor quantidade de premissas possíveis.
Tire tudo o que não muda a decisão de quem está usando.
Entre duas soluções que resolvem o mesmo problema, a que exige menos partes costuma ser a melhor. Em interface, a pergunta prática é o que cada elemento da tela está fazendo ali e o que aconteceria se ele saísse. A Apple levou isso ao extremo por décadas: o iPod tinha uma roda, o iPhone tinha um botão, e cada coisa removida era uma coisa a menos para explicar. O limite apareceu no dia em que o botão saiu de vez, e a mesma empresa precisou de um vídeo para ensinar a fechar um aplicativo.
Por que aqui não há neurociência
O mecanismo biológico por trás do efeito, e o quanto dele foi de fato medido.
A navalha é um princípio sobre como escolher entre explicações concorrentes, uma regra de método e não um fato sobre o cérebro. Não há mecanismo biológico a apresentar porque não há fenômeno: ninguém mede a parcimônia de alguém. O que se mede é o custo de cada elemento a mais numa tela, e esse custo está nas leis de Hick e de George Armitage MillerEscreveu, em 1956, o artigo do número mágico sete, que o próprio campo depois corrigiu para cerca de quatro.Uma referência neste trabalho:1956The magical number seven, plus or minus twoVer na Wikipédia ↗Ver na bibliografia →, onde ele tem número. Aplicar a navalha ao design é boa prática de raciocínio, e ela não fica melhor com anatomia.
Por que esta lei não presume corpo nenhum
Em quem isso foi medido, e o que muda quando o corpo do outro lado é outro.
Cortar o que não muda a decisão é regra de quem projeta, e vale igual em qualquer tela para qualquer pessoa. O cuidado está no que se corta. Simplificar a apresentação não é simplificar a decisão, e tirar um campo que muda a escolha de alguém não é economia, é omissão.
Como o design traduz
O que fazer com isso numa tela, sem transformar um achado em regra.
Como medir isso no seu produto
Num cadastro, pergunte de cada campo o que muda no sistema se ele não vier. O “como você nos conheceu” não muda nada do que o cadastro precisa decidir, e por isso ele sai da tela e do banco. O campo que muda alguma coisa fica, mesmo que a tela pareça mais cheia com ele. Dividir a mesma pergunta em duas etapas é outra coisa, e não é a navalha: ali nada foi cortado, só adiado.
Onde isso quebra
Onde a lei não vale, vale menos, ou vale ao contrário.
A navalha vale ao contrário quando o que sai da tela é justamente o que a pessoa precisava para decidir. Um cadastro que empurra o campo obrigatório para um passo adiante fica mais limpo na primeira tela e devolve a pessoa ao começo do pedido quando ela descobre o que faltava.
Neuromitos associados
O que circula por aí sobre este conceito, e o que a evidência de fato mostra.
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Menos é sempre mais: quanto mais limpa a interface, melhor.
A navalha manda escolher a explicação com menos premissas, não a tela com menos elementos. Tirar o que muda a decisão de quem usa não é economia, é omissão, e esconder complexidade não a elimina, só transfere para quem não pediu por ela.
Um caso
Um produto de verdade em que isto apareceu, com o que aconteceu e onde conferir.
O formulário que perdeu metade das perguntas
Em 2014 o serviço digital do governo britânico relançou o pedido de Carer’s Allowance, o benefício de quem cuida de alguém. Depois de pesquisar com quem pede e de questionar como a política vinha sendo interpretada no papel, a equipe removeu 170 perguntas do formulário, 49% do total, até sobrar só o que o pedido de fato precisa. Uma participante da pesquisa disse que era muito melhor do que esperava e que conseguiria fazer sozinha. O post não traz taxa de conclusão nem tempo, e esse é o número que mais faria falta. Ainda assim, é a navalha aplicada. Metade das perguntas não mudava o resultado do pedido, e saiu sem tirar nada que a decisão exigisse. Antes de pedir uma informação, vale saber o que muda se ela não vier. Se nada muda, ela não precisava estar ali.
Experimente
Uma peça para conferir no seu próprio corpo o que o texto acabou de afirmar.
Tire campos até o cadastro parar de funcionar
Este é o cadastro de um serviço qualquer. Remova os campos que você considera dispensáveis, um a um. O placar diz quantos sobraram, se ainda dá para criar a conta e — quando for o caso — para onde foi o trabalho que aquele campo fazia.
- E-mail sem ele não há para onde mandar a confirmação
- Senha sem ela não há como entrar de novo
- Confirmar senha um botão de “mostrar senha” resolve o mesmo problema com metade do trabalho
- Nome dá para pedir depois, quando fizer diferença para a pessoa
- Sobrenome separar o nome em dois campos serve ao banco de dados, não a quem preenche
- Telefone não é preciso para criar a conta, e é o campo que mais faz gente desistir
- Data de nascimento só é obrigatória quando há exigência legal — e aí ela deveria dizer isso
- Como conheceu a gente é uma pergunta de marketing cobrada como pedágio
- Aceite dos termos é o consentimento, e ele não pode ser presumido
9 campos. A conta pode ser criada.
O piso são três campos: e-mail, senha e aceite. Tudo acima disso é escolha, não requisito, e cada escolha tem um custo que quem preenche paga sozinho. Duas coisas costumam ser ditas juntas e não são a mesma. Occam é sobre não acrescentar o que não faz falta, e o que não faz falta some de verdade quando sai. Já o campo que fazia algum trabalho não desaparece ao ser cortado — o trabalho dele reaparece num e-mail sem nome, numa recuperação de conta mais frágil, numa segunda tela depois. Essa parte é a Lei de Tesler, e as duas convivem no mesmo formulário.
Quem realmente disse isso
O nome que a lei carrega, quem de fato escreveu aquilo, e por que a confusão colou.
A fórmula não é de Ockham. É de John Punch, 1639.
A frase que todo mundo cita — entia non sunt multiplicanda praeter necessitatem, “não se devem multiplicar os entes além do necessário” — não aparece em nenhuma obra sobrevivente de Guilherme de Ockham. Ela foi escrita pelo franciscano irlandês John Punch em 1639, num comentário a Duns Scotus, quase trezentos anos depois da morte dele. A atribuição colou porque não é injusta: Ockham usava o argumento o tempo todo, em outras palavras, e a navalha descreve mesmo o jeito dele de pensar. Só não descreve nada que ele tenha escrito. Quem desmontou isso foi W. M. ThorburnMostrou, em 1918, que a fórmula da navalha de Occam não aparece em nenhuma obra dele e foi escrita 300 anos depois.Uma referência neste trabalho:1918The myth of Occam’s razorVer na bibliografia →, em 1918, num artigo com o melhor título possível, “O mito da navalha de Occam”..
THORBURN, W. M. The myth of Occam’s razor. Mind, v. 27, n. 107, p. 345-353, 1918. DOI
Conceitos vizinhos
Conceitos irmãos
Fontes
Enunciado atribuído a Guilherme de Ockham, séc. XIV, mas a fórmula não é dele.
Leitura complementar: Occam’s Razor Laws of UX em inglês