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limiar

Limiar de Doherty

A produtividade aumenta quando um computador e seus usuários interagem num ritmo menor que 400 milissegundos.

Doherty; Thadani, 1982

Responda em menos de 400 ms, nem que seja para dizer que está processando.

Existe um ponto em que a máquina deixa de responder e passa a fazer você esperar, e ele é mais cedo do que parece, em torno de 400 milissegundos. Walter DohertyMediu, na IBM em 1982, o ganho de produtividade quando o computador responde abaixo de 400 ms. É a origem do limiar que leva seu nome.Uma referência neste trabalho:1982The economic value of rapid response timeVer na bibliografia → e Ahrvind Thadani chegaram a esse número na IBM em 1982, medindo produtividade de operadores em terminais. O achado foi contraintuitivo para a época: acelerar o sistema abaixo desse limiar não deixava as pessoas só mais satisfeitas, deixava-as mensuravelmente mais produtivas, porque abaixo dele a ação continua parecendo da pessoa, e acima dele vira espera.

Por que aqui não há neurociência

O mecanismo biológico por trás do efeito, e o quanto dele foi de fato medido.

O número de 400 ms saiu de medição de produtividade num terminal da IBM, não de laboratório de neurociência: Doherty e Thadani cronometraram trabalho real e viram a produção subir quando o sistema respondia abaixo desse limite, e subir o bastante para pagar o custo de melhorar a máquina. Não existe mecanismo neural estabelecido para essa fronteira específica. O efeito é real e foi medido em produtividade de operadores, não em cérebro.

O corpo que esta lei presume

Em quem isso foi medido, e o que muda quando o corpo do outro lado é outro.

Ver a tabela completa →

um lugar

Os 400 ms saíram de terminais IBM em 1982, com operadores treinados numa máquina que a empresa controlava inteira. Em conexão instável ou aparelho velho esse número é inalcançável, e cobrá-lo de quem projeta não ajuda ninguém. O que continua valendo é mais modesto. Quando a resposta demora mais que isso, a tela precisa dizer em que pé ela está.

Como o design traduz

O que fazer com isso numa tela, sem transformar um achado em regra.

Responder rápido nem sempre é possível, mas responder é. Um toque no botão de enviar precisa mudar alguma coisa na tela antes de a pessoa se perguntar se tocou: o botão afunda, um indicador aparece, um estado intermediário entra no lugar. Quando a resposta de verdade vai demorar, diga em que pé ela está, carregando, processando, esperando a rede, porque o que faz a espera parecer travamento é o silêncio, e não a demora. O gráfico que Walter Doherty e Ahrvind Thadani publicaram num relatório técnico da IBM em 1982 mostra o número de transações disparando quando a resposta cai abaixo do limiar, e é ele que sustenta a primeira metade da regra, que é a resposta real abaixo de 400 ms. Confirmar por imagem ou som que o toque foi registrado é boa prática de projeto, não achado da IBM.

Onde isso quebra

Onde a lei não vale, vale menos, ou vale ao contrário.

Falsear a velocidade não resolve. Esqueleto de carregamento em tudo esconde o problema, e barra de progresso que não corresponde ao progresso real custa mais confiança do que a espera honesta.

Neuromitos associados

O que circula por aí sobre este conceito, e o que a evidência de fato mostra.

  • A demora causa “sequestro da amígdala” e a pessoa perde a capacidade de raciocinar.

    — dizem por aí

    O termo veio da divulgação, não do laboratório, e a fisiologia não fecha, porque o cortisolO hormônio do estresse, e um hormônio lento: leva de vinte a quarenta minutos para chegar ao pico, então não é ele que explica a irritação com uma tela travada, e sim o que se acumula num dia inteiro de trabalho ruim. Sustentado, ele derruba a memória de trabalho.Ver em Emoção →Ver no glossário → leva dezenas de minutos para chegar ao pico. Meio segundo de espera irrita, e irritação já basta como argumento, sem hormônio.

  • A atenção humana caiu para 8 segundos, menos que a de um peixinho dourado.

    — dizem por aí

    Não existe estudo. O número circula desde 2015 atribuído a uma consultoria que o creditou a uma fonte que nunca o publicou, e a comparação com o peixe não tem origem científica. Atenção não é quantidade única medida em segundos.

Um caso

Um produto de verdade em que isto apareceu, com o que aconteceu e onde conferir.

Quatrocentos milissegundos, medidos no Google

Em 2009 o Google atrasou de propósito a página de resultados para uma fração das pessoas, entre 100 e 400 milissegundos, durante seis semanas. Um atraso de 400 milissegundos reduziu o número diário de buscas por pessoa em 0,44% nas três primeiras semanas e em 0,74% nas três seguintes. O efeito cresceu com o tempo de exposição e não sumiu quando o atraso foi removido. Nas cinco semanas seguintes à remoção do atraso, o grupo ainda buscou, em média, 0,21% menos que o grupo de controle. Quatrocentos milissegundos são pouco tempo, e mesmo assim mudam quanto a pessoa usa o sistema, e o hábito perdido não volta na hora em que a velocidade volta. O experimento mede latência real, não a sensação de resposta que um indicador de progresso dá, então ele sustenta a primeira metade do limiar e deixa a segunda como boa prática. A lentidão cobra mesmo quando ninguém reclama dela.

Brutlag, 2009

Experimente

Uma peça para conferir no seu próprio corpo o que o texto acabou de afirmar.

Quando a resposta vira espera

Ajuste o atraso e clique em Salvar. Faça isso algumas vezes, variando o atraso, e repare em que ponto a ação deixa de parecer sua e passa a parecer que você está esperando a máquina.

Como isso é percebido
como resposta — a ação parece sua
O que a IBM mediu em 1982
0 200 400 Programadores Profissionais administrativos resposta mais lenta ←  → mais rápida transações por hora

Só os quatro pontos marcados foram medidos; a linha tracejada liga as pontas e não descreve o caminho entre elas. Fonte: Doherty e Thadani, IBM, 1982.

Abaixo de 400 ms a ação parece sua; acima, parece que você está esperando a máquina. A virada não acontece quando o tempo dobra ou triplica, acontece nessa faixa estreita em torno de 400 ms, e vale igual para um botão de salvar e para uma busca inteira.

Conceitos vizinhos

Conceitos irmãos

Fontes

Enunciado citado de Doherty; Thadani, 1982.

  • DOHERTY, W. J.; THADANI, A. J. The economic value of rapid response time. IBM, 1982. (IBM Technical Report GE20-0752-0.) Fonte

Leitura complementar: Doherty Threshold Laws of UX em inglês

Ver a bibliografia completa do trabalho →