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Lei de Tesler

Toda aplicação tem uma quantidade inerente de complexidade irredutível. A única pergunta é: quem vai ter de lidar com ela — o usuário, quem faz a aplicação ou quem faz a plataforma?

Tesler, 1984

A complexidade não some: decida se ela fica com você ou com quem usa.

O outro nome dela explica melhor: conservação da complexidade. Larry TeslerFormulou a lei da conservação da complexidade: ela não some, só muda de lado, do usuário para o desenvolvedor, ou o contrário.Uma referência neste trabalho:1984The law of conservation of complexityVer na bibliografia →, que trabalhou na Xerox PARC e na Apple, observou que todo sistema tem uma quantidade de complexidade que não pode ser eliminada, só transferida. Se o programa não faz, alguém faz. A pergunta que a lei coloca não é "como simplificar", é quem vai pagar esta conta, cada pessoa que usa, o time que constrói o produto, ou quem constrói a plataforma sobre a qual o produto é feito. Uma tela limpa demais costuma ser uma tela que empurrou o trabalho para o outro lado.

Por que aqui não há neurociência

O mecanismo biológico por trás do efeito, e o quanto dele foi de fato medido.

Tesler é um axioma de projeto sobre onde alocar complexidade, e não um fenômeno com assinatura mensurável: a complexidade inerente a uma tarefa não desaparece, então a única decisão real é quem paga por ela, o sistema ou quem usa. Não há efeito a explicar, logo não há mecanismo cerebral a apresentar. O que sustenta esta lei é a experiência acumulada de quem constrói sistemas.

Por que esta lei não presume corpo nenhum

Em quem isso foi medido, e o que muda quando o corpo do outro lado é outro.

Ver a tabela completa →

A complexidade não some, e esta lei é sobre onde ela vai parar. Ela vale igual para qualquer pessoa. Quem acaba pagando a conta costuma ser quem tem menos repertório e menos tempo para gastar.

Como o design traduz

O que fazer com isso numa tela, sem transformar um achado em regra.

Como medir isso no seu produto

Num painel financeiro, exibir todos os cálculos na tela obriga a pessoa a carregar cada fórmula na cabeça e a decidir, linha a linha, o que importa. A alternativa é absorver a complexidade em algoritmos de suporte, mostrar os resultados-chave e oferecer a explicação sob demanda, para quem quiser conferir. O e-mail é o exemplo de todo dia: por mais que se redesenhe um cliente de e-mail, alguém tem de dizer para quem vai e o que está escrito. Essa parte não comprime, e é só o resto da tela que dá para tirar da frente.

Onde isso quebra

Onde a lei não vale, vale menos, ou vale ao contrário.

Absorver complexidade demais também quebra. Quando o sistema decide tudo, quem usa perde a capacidade de conferir e de corrigir, e passa a depender de um acerto que não consegue auditar.

Um caso

Um produto de verdade em que isto apareceu, com o que aconteceu e onde conferir.

As três caixas que seguravam US$ 894 milhões

Tela do sistema Flexcube: uma tabela GL Detail com os componentes COLLAT, COMPINTSF, DEFAUL, DFLFTC, FRONT, FUND, INTEREST e PRINCIPAL, cada um com uma caixa de seleção na coluna Overwrite default settlement instruction. Só a caixa de PRINCIPAL está marcada.
A tela do Flexcube reproduzida na decisão judicial, com só a caixa de PRINCIPAL marcada
S.D.N.Y. · decisão de 16/02/2021 (interface do Flexcube, Oracle) · Uso editorial

Em agosto de 2020 o Citibank queria pagar cerca de US$ 7,8 milhões de juros aos credores de um empréstimo da Revlon. No sistema usado pela operação, qualquer pagamento sai como transferência a menos que o operador suprima esse padrão, e para reter o principal era preciso marcar três campos de nome críptico. O operador marcou um. O revisor e o aprovador concordaram que bastava. A tela final avisava que os fundos sairiam do banco e perguntava se queria continuar, sem dizer quanto. Saíram US$ 893.944.008,52 além dos juros. A complexidade de não mandar o dinheiro ficou inteira com quem operava, e três pessoas experientes erraram do mesmo jeito, que é o que a lei prevê quando o sistema não absorve nada. A primeira decisão judicial, em 2021, deixou com os credores os cerca de US$ 500 milhões que eles se recusaram a devolver; a segunda instância reverteu em 2022 e o banco recuperou o dinheiro.

In re Citibank August 11, 2020 Wire Transfers, S.D.N.Y., 2021

Experimente

Uma peça para conferir no seu próprio corpo o que o texto acabou de afirmar.

Até onde dá para remover complexidade

A Lei de Tesler diz que todo sistema tem uma quantidade de complexidade que não dá para eliminar, e aqui quem faz o papel do sistema é a frase abaixo. Clique em qualquer palavra ou expressão para removê-la, e de novo para devolver. O semáforo ao lado diz se a frase ainda faz sentido, se perdeu informação, ou se parou de funcionar.

frase 1 de 3

Faz sentido

A frase continua dizendo tudo o que dizia.

Agora segure o principal

A tela do caso, reduzida. Você quer pagar só os juros e reter o principal. Marque o que for preciso e confirme.

A tela do Flexcube, reduzida a três componentes
ComponenteSobrescrever a instrução padrão
FRONT
FUND
PRINCIPAL

Todo sistema tem um núcleo de complexidade que não pode ser eliminado, só deslocado. O que você tirou antes do vermelho não sumiu: passou a ser trabalho de quem lê.

Conceitos vizinhos

Conceitos irmãos

Fontes

Enunciado citado de Tesler, 1984.

  • TESLER, L. The law of conservation of complexity. c. 1984. Fonte

Leitura complementar: Tesler’s Law Laws of UX em inglês

Ver a bibliografia completa do trabalho →